Mineração
Materiais para baterias entram na agenda global de segurança energética
Ana Cabral, CEO da Sigma Lithium, afirma que o desafio já não é encontrar lítio, mas garantir materiais rastreáveis, sustentáveis e capazes de abastecer a nova economia
Em um dos principais eventos mundiais do setor de energia, a CEO da Sigma Lithium, Ana Cabral, defendeu que materiais para baterias passaram a ocupar posição estratégica na segurança energética. Ao lado de Gustavo Pimenta, CEO da Vale, ela afirmou que o desafio global já não é encontrar lítio, mas garantir materiais rastreáveis, sustentáveis e capazes de abastecer a nova economia.
O tema ganhou destaque em encontro promovido no Rio de Janeiro pela S&P Global Energy, que reuniu executivos para discutir a reconfiguração das cadeias de suprimento de minerais críticos, diversificação, riscos e geração de valor. O debate com Pimenta e Ana Cabral foi moderado por Carlos Pascual, vice-presidente sênior da S&P Global.
“Não há transição energética, não há inteligência artificial, não há nova economia sem minerais críticos”, afirmou Pimenta.
Segundo o executivo, estudos internacionais apontam que a produção desses minerais precisará crescer entre cinco e seis vezes nas próximas décadas para atender à demanda das novas tecnologias. “O problema hoje não é a demanda. O problema é a oferta”, disse.
Ana Cabral defendeu que os materiais para baterias sejam compreendidos como uma cadeia estratégica própria, distinta de outros segmentos da mineração. Para ela, um dos equívocos do debate atual é considerar que o mundo enfrenta escassez de lítio.
“O lítio não é raro. O que é raro é o lítio rastreável.”
Segundo a executiva, o crescimento da demanda por veículos elétricos, armazenamento de energia e inteligência artificial mudou o perfil dos compradores. O mercado passou a exigir materiais produzidos com elevados padrões de rastreabilidade, sustentabilidade e confiabilidade, hoje um dos principais gargalos da cadeia global de suprimento do lítio.
Ana Cabral também ressaltou a necessidade de diferenciar os materiais para baterias das terras raras. Embora apareçam frequentemente reunidos nas discussões sobre minerais críticos, cada metal possui dinâmica própria de produção, processamento, mercado e aplicação tecnológica.
“Cada metal da tabela periódica possui uma dinâmica completamente diferente”, afirmou. Segundo ela, tratar essas cadeias como uma única indústria dificulta a formulação de políticas públicas e estratégias de investimento adequadas.
A CEO da Sigma Lithium também chamou atenção para a transformação do perfil das empresas produtoras de materiais para baterias. “Nós não somos mineradores quando falamos de minerais críticos”, disse.
Ela explicou que o mercado não compra apenas o minério extraído, mas produtos industrializados, como concentrados e óxidos, que representam uma primeira etapa de agregação de valor. Esse processamento conecta mineração, indústria química, fabricantes de baterias, montadoras de veículos elétricos e empresas de tecnologia.
Segundo Ana Cabral, os clientes da Sigma Lithium já vão além do setor automotivo. Os chamados hyperscalers, grandes empresas de tecnologia responsáveis pela expansão da inteligência artificial e dos data centers, também passaram a disputar materiais para baterias.
Outro tema abordado foi a distribuição dos riscos ao longo da cadeia. Segundo ela, mineradoras assumem grande parte do risco geológico durante anos de pesquisa, exploração e desenvolvimento, enquanto fabricantes de baterias e montadoras também precisam participar dos investimentos necessários nas etapas posteriores de processamento industrial.
Condições para liderar
Gustavo Pimenta afirmou que o Brasil reúne condições para ocupar posição de destaque nessa cadeia global.
“Não acredito que exista país melhor para liderar essa nova mineração do futuro. Temos tudo em escala. Temos infraestrutura. Temos qualidade. É uma oportunidade única para o País.”
Para o CEO da Vale, a ampliação da oferta dependerá da aceleração do licenciamento ambiental, do fortalecimento das instituições responsáveis pelo setor mineral e da criação de condições para viabilizar grandes investimentos.
Ana Cabral também defendeu maior agilidade para projetos que comprovem elevados padrões ambientais. Em analogia ao sistema Global Entry, dos Estados Unidos, afirmou que empreendimentos com alto nível de conformidade poderiam contar com uma espécie de “via rápida” regulatória, com redução de burocracias sem diminuição do rigor técnico.