Infraestrutura
Comitiva da CNA identifica gargalos na BR-319 e na logística do Arco Norte
Expedição entre Rondônia e Amazonas apontou condições precárias da rodovia, impactos da seca sobre a navegação e limitações na infraestrutura de transporte de cargas
As condições precárias da BR-319, os impactos dos períodos de seca sobre a navegação e a necessidade de ampliar a infraestrutura portuária e hidroviária estão entre os principais gargalos identificados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) durante uma expedição pela Região Norte. A missão percorreu mais de 889 quilômetros entre Porto Velho (RO) e Manaus (AM), entre 9 e 13 de agosto, para avaliar as condições de transporte utilizadas no escoamento da produção agropecuária.
A BR-319, principal ligação terrestre entre Manaus e Porto Velho, foi um dos pontos centrais da avaliação. A comitiva constatou as condições precárias da rodovia, construída na década de 1970 e que atualmente passa por um processo de recuperação. Para a entidade, a melhoria do corredor é importante para reduzir o isolamento logístico de Amazonas e Roraima e ampliar a integração da Amazônia Ocidental com o restante do país.
A expedição também identificou desafios relacionados à navegação nos rios da região. No Super Terminais, em Manaus, a comitiva foi informada de que os períodos de seca reduzem a capacidade de ocupação dos navios e, em situações mais severas, podem levar à transferência de operações para outros portos.
O cenário, segundo os participantes da missão, alerta sobre a necessidade de investimentos em infraestrutura e de medidas que aumentem a previsibilidade da navegação nos corredores do Arco Norte, fundamentais para o transporte de grãos e outras cargas do agronegócio.
A missão foi realizada pela CNA em conjunto com as Federações de Agricultura e Pecuária do Amazonas (Faea), Acre (Faeac), Roraima (Faerr) e Rondônia (Faperon). Além da BR-319, a comitiva visitou portos, terminais e estruturas logísticas em Rondônia e no Amazonas.

BR-319 é um dos principais gargalos
Em Porto Velho, a comitiva visitou a sede da Faperon e estruturas das empresas Bertolini, Cargill e Mega Logística. De lá, seguiu para Humaitá (AM), onde conheceu as Instalações Portuárias Públicas de Pequeno Porte (IP4), antes de continuar pela BR-319 até Careiro Castanho e Manaus.
O presidente da Comissão de Infraestrutura e Logística da CNA, Mário Borba, destacou que a expedição permitiu observar diretamente as condições da rodovia e dos portos utilizados na movimentação de cargas.
Segundo Borba, a BR-319, que já foi totalmente asfaltada, encontra-se atualmente em condições precárias e passa por obras de recuperação. Ele afirmou que o levantamento realizado durante a viagem será consolidado em um relatório a ser apresentado a autoridades do setor de infraestrutura e logística e a parlamentares.
Para o presidente da Faea e vice-presidente da CNA, Muni Lourenço, a recuperação da rodovia é estratégica para a integração regional.
“A BR-319 é um corredor de integração econômica que pode tirar do isolamento Amazonas e Roraima. Além disso, visitamos portos e terminais extremamente estratégicos que compõem o Arco Norte, tão importante para o escoamento e para o agro brasileiro”, afirmou.
O presidente da Faperon, Hélio Dias, também apontou a importância da rodovia para conectar Manaus a Porto Velho e ao restante do país. Segundo ele, a recuperação da estrada pode ampliar o acesso de produtos de Rondônia ao mercado consumidor amazonense.
Seca afeta capacidade dos navios
Em Manaus, a comitiva visitou o Estaleiro da Bertolini e o Super Terminais, terminal especializado na movimentação de cargas conteinerizadas.
Segundo o diretor-geral do Super Terminais, Marcello Di Gregório, o terminal movimentou 150 mil contêineres em 2025 e responde por cerca de 50% das cargas que entram e saem da capital amazonense.
Ele explicou que a redução do nível dos rios durante os períodos de seca limita a capacidade de ocupação dos navios. Em situações mais severas, as restrições podem levar à transferência das operações para outros portos.
A expedição também avaliou o papel das hidrovias no escoamento da produção pelo Arco Norte. Durante a visita ao terminal da Cargill, o diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável das Hidrovias e dos Corredores de Exportação (Adecon), Edeon Vaz Ferreira, apresentou dados sobre a movimentação de grãos e as características da infraestrutura portuária e hidroviária da região.
Ele destacou a importância do projeto de outorga dos rios, incluindo o Madeira e o Tapajós, para garantir melhores condições de navegação, ampliar a confiabilidade dos corredores hidroviários e aumentar a segurança e a previsibilidade do transporte de cargas.
Para o vice-presidente da CNA, Gedeão Pereira, o crescimento da produção agropecuária brasileira exige investimentos em infraestrutura e maior aproveitamento da rede hidroviária. “O Rio Madeira e os demais portos localizados no chamado Arco Norte são fundamentais para o escoamento do agronegócio brasileiro”, afirmou.

Integração regional
A precariedade da BR-319 também foi apontada como um problema que ultrapassa o transporte de cargas. Para a assessora técnica da Comissão de Logística da CNA, Elisangela Pereira Lopes, a rodovia é necessária tanto para a movimentação de mercadorias quanto para o deslocamento da população da Amazônia Ocidental.
“Mesmo tendo sido construída em 1970 e hoje possuindo uma infraestrutura precária, ela é necessária para a movimentação não só de cargas, mas de pessoas que dependem dessa ligação”, afirmou.
O vice-presidente da Faeac, Edivan de Azevedo, ressaltou que a recuperação da BR-319 também poderá ampliar as alternativas de acesso dos produtores do Acre aos mercados da região.
Para ele, uma rodovia com fluxo contínuo e melhores condições de pavimentação poderia fortalecer a integração da Amazônia Ocidental e facilitar a conexão com mercados do Peru e dos oceanos Atlântico e Pacífico.
Relatório deverá reunir diagnóstico
Ao final da expedição, a CNA deverá consolidar as informações levantadas em um relatório sobre os principais gargalos identificados na infraestrutura rodoviária, portuária e hidroviária da Região Norte.
O documento será apresentado a autoridades do setor de infraestrutura e logística e a parlamentares, com o objetivo de subsidiar discussões sobre investimentos e políticas públicas para melhorar a integração regional e o escoamento da produção agropecuária.
A missão reuniu representantes da CNA e das Federações de Agricultura e Pecuária do Amazonas, Acre, Roraima e Rondônia e percorreu estruturas logísticas em Porto Velho, Humaitá e Manaus.