Sul Export
Eólica offshore exigirá adaptação de portos e planejamento da navegação
Setor defende regulamentação antecipada e projetos-piloto para preparar infraestrutura logística e evitar conflitos pelo uso do mar
A expansão da geração de energia eólica offshore no Brasil exigirá a adaptação dos portos e o planejamento antecipado da infraestrutura logística para atender à nova cadeia produtiva. O tema foi discutido nesta quinta-feira (17), durante o Fórum Sul Export 2026, em Foz do Iguaçu (PR), em painel que reuniu representantes dos setores portuário, elétrico e de engenharia.
Além da infraestrutura, os participantes destacaram a necessidade de regulamentar a atividade considerando as demais operações que utilizam o espaço marítimo, como navegação, pesca e atividades portuárias. A avaliação é que essas questões precisam ser consideradas antes do avanço dos empreendedores para etapas mais caras de desenvolvimento dos projetos.
O diretor de Novos Negócios da ABEEólica, Marcello Cabral, afirmou que a eólica offshore não pode ser tratada apenas como uma questão do setor elétrico e que a infraestrutura de apoio será determinante para a implantação dos empreendimentos. “A gente não pode discutir eólica offshore só no setor elétrico. A gente tem que discutir eólica offshore no setor que apoia, no setor em que, sem ele, a eólica offshore vai ficar apenas no papel”, afirmou.
Cabral citou a Lei nº 15.097/2025, que estabeleceu diretrizes para a exploração de energia elétrica offshore, e defendeu que a regulamentação organize previamente a participação dos diferentes órgãos envolvidos.
Segundo ele, essa definição é importante para reduzir o risco de conflitos entre os futuros parques e outras atividades marítimas. “É uma fase pré muito importante para garantir que o que está na lei, de respeito às regras de navegação, respeito ao uso múltiplo do mar, seja respeitado”, afirmou.
Projetos-piloto
Os projetos-piloto foram apontados durante o painel como uma alternativa para testar soluções antes da expansão comercial da atividade. Entre as iniciativas citadas está um projeto de eólica flutuante em desenvolvimento em Rio Grande (RS).
O CEO da JB Energy, Rodolfo Gonçalves, afirmou que o projeto pretende avaliar aspectos relacionados à navegação, pesca, meio ambiente, infraestrutura e operação. “O projeto piloto é capaz de responder muitas dessas perguntas”, disse.
A iniciativa também prevê a participação de empresas locais, órgãos públicos, academia e integrantes da comunidade portuária desde as primeiras etapas. De acordo com Gonçalves, a proposta é aproveitar a experiência acumulada pelo Brasil nas operações offshore e antecipar a preparação dos portos.
“A gente não quer cometer o mesmo erro que aconteceu no Japão. Fazem 13 anos de projetos-pilotos e eles não conseguiram fazer essa escala comercial porque não pensaram no porto desde o começo”, afirmou.
Cadeia logística
A preparação dos portos foi outro ponto central do debate. O diretor de Meio Ambiente da Portos RS, Henrique Horn Ilha, destacou que os terminais podem ter participação não apenas na operação dos parques eólicos, mas também na formação da cadeia industrial associada ao setor.
A experiência brasileira em petróleo e gás, segundo ele, pode ser aproveitada em atividades como construção naval, embarcações de apoio e prestação de serviços especializados. “Essa é uma vantagem muito grande. Os portos que tiveram a bênção de ter o offshore aprenderam mais rápido, dependendo da maturidade do porto, a lidar com isso”, afirmou.
Ilha também chamou atenção para a dimensão dos equipamentos utilizados nos parques eólicos offshore, que deverá demandar uma estrutura logística de grande escala. Nesse cenário, a cabotagem poderá ter papel relevante no transporte dos componentes ao longo da costa brasileira.
Para os participantes, a preparação não deve ficar limitada aos portos que receberão diretamente os empreendimentos. Diferentes terminais poderão integrar a cadeia de fornecimento, dependendo da localização dos parques e da distribuição das etapas de fabricação, montagem, transporte e instalação dos equipamentos.
O painel também contou com a participação de Felipe Ribolla Masetti, da Technomar Engenharia, e foi moderado por Jacqueline Wendpap, diretora-executiva do Instituto Praticagem do Brasil.
As discussões tiveram como referência as diretrizes da PIANC, organização internacional fundada em 1885 que reúne especialistas e representantes de diferentes países para tratar do desenvolvimento da infraestrutura aquaviária e marítima. O Brasil participa da entidade desde 2007, com presença em grupos de trabalho e debates técnicos sobre portos, hidrovias, navegação e instalações marítimas.