Transportes
62,7% das transportadoras relatam mudanças na frota após biodiesel
Levantamento da Fetcesp aponta entupimento de filtros, maior frequência de manutenção e falhas no sistema de injeção entre as principais ocorrências
Seis em cada dez transportadoras consultadas pela Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (Fetcesp) afirmam ter percebido mudanças na operação das frotas após os aumentos recentes do teor de biodiesel no diesel comercializado no Brasil. O levantamento, realizado com 126 empresas, aponta entupimento de filtros, aumento da frequência de manutenção e falhas no sistema de injeção entre as principais ocorrências relatadas.
Segundo a pesquisa, 62,7% das transportadoras participantes afirmaram ter percebido alterações na operação da frota. O entupimento de filtros foi o problema mais citado, mencionado por 59,52% das empresas. Na sequência aparecem o aumento da frequência de manutenção, com 40,48%, e falhas no sistema de injeção, apontadas por 39,68%.
O levantamento foi realizado entre junho e agosto de 2026 por técnicos do Programa Despoluir, sob supervisão do engenheiro Flávio Teixeira Júnior, coordenador do programa em São Paulo. O Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC) foi responsável pela compilação e tabulação dos dados.
A pesquisa também identificou impacto sobre os custos de manutenção. Entre as empresas consultadas, 64,29% relataram aumento nas intervenções e nos gastos de manutenção da frota.
A mistura obrigatória de biodiesel no diesel vem sendo ampliada gradualmente no País. O percentual, que era de 10% até abril de 2023, chegou a 15% em agosto de 2025. A trajetória prevista estabelece aumento de um ponto percentual por ano até alcançar 25% em março de 2030.
Os resultados, no entanto, representam a percepção das transportadoras consultadas e não permitem, isoladamente, estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre o aumento do teor de biodiesel e as ocorrências relatadas. Segundo a própria pesquisa, fatores como qualidade e armazenamento do combustível, características dos veículos, condições de operação e manutenção também devem ser considerados em uma avaliação técnica.
Para Flávio Teixeira, a percepção das empresas ganha relevância diante do nível de acompanhamento das frotas. De acordo com o levantamento, 92,1% das transportadoras participantes mantêm programas estruturados de manutenção preventiva. “Empresas que acompanham de forma contínua filtros, sistema de injeção, consumo e desempenho conseguem perceber alterações com mais rapidez. O levantamento ajuda a reunir essas experiências e identificar os pontos que aparecem com maior frequência. O próximo passo é aprofundar tecnicamente essas informações e contribuir para que a evolução dos biocombustíveis ocorra com segurança e previsibilidade para as operações”, explica o engeheiro.
Setor defende ampliação voluntária da mistura
Em paralelo às preocupações das transportadoras, o setor de biocombustíveis defende a ampliação do uso do produto como uma alternativa diante de possíveis riscos de abastecimento.
A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) alerta para relatos de restrições e atrasos na entrega de diesel a produtores rurais, renovando a preocupação com a segurança do abastecimento no início do plantio da safra de verão. Diante desse cenário, a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio) defende o uso voluntário de biodiesel acima da mistura obrigatória de 15%, o chamado B15.
A utilização voluntária de percentuais superiores ao obrigatório não depende mais de autorização prévia da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). É necessária apenas comunicação à agência para aplicações como transporte público, transporte ferroviário, navegação interior e marítima, frotas cativas, equipamentos e veículos destinados à extração mineral e à geração de energia elétrica, além de tratores e outros equipamentos utilizados em atividades agrícolas.
Para o presidente da Aprobio, Jerônimo Goergen, a ampliação da mistura poderia contribuir para reduzir a dependência de combustível importado. “Outro caminho para reduzir os riscos é que o Governo Federal avance na ampliação do uso do biodiesel com a implementação imediata do B17, elevando a mistura para reduzir a dependência internacional nacional como parte da solução”, destaca Goergen.
Segundo ele, o setor está mobilizando recursos e esforços para acelerar os testes necessários à ampliação da mistura.
O Governo Federal já realiza testes para avaliar desempenho, durabilidade e segurança de misturas com percentuais de biodiesel de até B25. A Aprobio defende que o governo solicite os laudos técnicos dos testes já realizados e promova uma reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) para deliberar sobre o B17.
Segundo Goergen, “a indústria nacional possui ampla capacidade produtiva e regulamentação adequada para garantir o suprimento contínuo de biodiesel e impulsionar a economia sem depender de choques externos”.