Brasil Export
Setor defende articulação público-privada para ampliar infraestrutura logística no Sul
Executivos apontam segurança jurídica, planejamento de longo prazo e diversificação do financiamento como fatores para viabilizar novos projetos
A expansão da infraestrutura logística no Sul dependerá de uma maior articulação entre iniciativa privada e poder público, além de segurança jurídica e novas formas de financiamento. A avaliação foi apresentada por executivos durante o painel “Demandas do setor produtivo e o protagonismo da região Sul para o desenvolvimento econômico do Brasil”, no Sul Export 2026, em Foz do Iguaçu (PR).
O diretor de Comunicação e Relações Institucionais do Porto Itapoá, Alberto Machado, defendeu que os investimentos privados sejam alinhados ao planejamento público e às necessidades futuras da indústria. Segundo ele, o volume de capital empregado em logística exige uma visão de longo prazo para evitar que novas estruturas sejam planejadas sem considerar a evolução da demanda.
“O alto volume de Capex investido em logística deve estar em perfeita sintonia com a demanda futura, o que muitas vezes não é plenamente contemplado nos planos vigentes”, afirmou Machado.
Para o executivo, a integração entre o setor produtivo e o planejamento industrial deve ganhar espaço nas políticas públicas. No caso de Itapoá, o terminal está iniciando sua quinta fase de expansão e trabalha simultaneamente em projetos de ampliação de calado, duplicação de acessos rodoviários e estudos para implantação de uma conexão ferroviária.
A necessidade de previsibilidade também foi destacada pelo diretor de Planejamento Operacional e Logística da Klabin, Roberto Bisogni. A companhia ampliou sua capacidade produtiva em quase 60% na última década, com investimentos de dezenas de bilhões de reais em projetos concebidos para operar durante décadas.
“É fundamental termos a confiança de que o Brasil acompanhará essa evolução estrutural a longo prazo. Somente dessa forma conseguiremos sustentar esse crescimento”, disse Bisogni.
A empresa adotou uma série de medidas para reduzir sua dependência de terceiros no escoamento, como a construção de ramal ferroviário, aquisição de locomotivas e vagões e implantação de terminais. Ainda assim, aproximadamente metade das exportações permanece dependente do transporte rodoviário até os portos de Paranaguá e Santa Catarina.
Para o diretor do Terminal Portuário Cotriguaçu e delegado regional da ABTP, Rodrigo Buffara Farah, a resposta aos desafios também passa pela capacidade de organização dos próprios agentes do setor.
“Um ponto determinante dessa força é a união da comunidade portuária”, afirmou Farah, ao citar iniciativas de cooperação entre os atores locais. Segundo ele, a resiliência do setor tem sido construída a partir da criatividade e da capacidade de adaptação diante dos gargalos existentes.
O executivo também destacou que a expansão da produção exige uma infraestrutura capaz de acompanhar a demanda. No Paraná, ele apontou deficiências ferroviárias no Oeste do Estado e problemas persistentes nos acessos ao Porto de Paranaguá.
Modelo de Itapoá
O CEO da Transglobal Holding, Beto Martins, apresentou a experiência de Itapoá como exemplo de como a articulação entre governos e empresas pode viabilizar obras de infraestrutura.
Segundo Martins, quando esteve à frente da Secretaria de Portos, Aeroportos e Ferrovias de Santa Catarina, o impasse relacionado às obras do canal de acesso do porto foi enfrentado por meio de uma solução que combinou recursos privados e participação pública.
“Enquanto o restante do país levava anos discutindo modelos complexos, em dois meses estabelecemos uma solução inédita: o setor privado aportou o recurso, que será compensado via tarifas, com o suporte do Estado na condição de delegatário e a anuência do governo federal”, relatou.
A estruturação financeira aparece como outro componente para sustentar a expansão. O sócio da AVREN, Thiago Meirelles, afirmou que projetos de infraestrutura precisam combinar diferentes fontes de recursos para reduzir custos de capital e enfrentar um cenário macroeconômico desafiador. Segundo ele, as alternativas passam por equity, mercado de capitais e crédito corporativo.“Nós não nos limitamos a uma única via”, concluiu.