Brasil Export
Portos ampliam investimentos em resiliência climática
Especialista alerta que incentivos fiscais não bastam e recomenda análise prévia de portos, modais, estoques, fornecedores e custos
Os incentivos fiscais oferecidos pelo Paraguai podem atrair empresas brasileiras, mas não são suficientes para garantir a viabilidade de uma operação industrial no país. A avaliação foi apresentada pela executiva de supply chain e especialista em otimização logística global Selma Nadir Peralta durante o InfraJur – Encontro de Direito de Infraestrutura de Transportes, Energia e Mineração, que ocorreu dentro da programação do Sul Export.
Segundo Selma, empresas interessadas em ingressar no mercado paraguaio precisam analisar toda a cadeia de suprimentos antes de transferir suas operações. A avaliação envolve desde a estrutura societária e tributária até fornecedores, custos de matérias-primas, portos, modais de transporte, estoques e nível de serviço.
“Embora a distância geográfica entre o Brasil e o Paraguai seja curta, a jornada para uma operação consolidada é complexa e exige planejamento minucioso”, afirmou.
Para a executiva, o planejamento logístico ganha peso justamente porque o Paraguai não possui saída direta para o mar. A escolha da rota de transporte precisa considerar as características da carga e as necessidades de cada empresa.
Entre os pontos que devem ser avaliados estão o porto mais adequado para cada tipo de produto e a utilização do transporte fluvial. Embora possa apresentar menor custo, o modal hidroviário precisa ser compatível com as necessidades de estoque e com o nível de serviço exigido pela operação.
Selma defendeu uma abordagem de implantação baseada no planejamento prévio da operação: “chegar bem antes de chegar rápido.”
A estratégia, segundo ela, passa por três pilares: estruturação societária e conformidade jurídica; configuração fiscal e tributária; e gestão estratégica da cadeia de suprimentos, logística e comércio exterior.
A executiva relatou ter acompanhado casos de empresas de grande porte que não alcançaram os resultados esperados no Paraguai apesar de vantagens como o custo competitivo da energia elétrica.
Segundo Selma, a ausência de um mapeamento completo da logística e dos custos das matérias-primas pode comprometer a competitividade do projeto. “Se a dinâmica logística e os custos da matéria-prima não forem devidamente mapeados, o projeto pode se tornar inviável”, afirmou.
Cadeias produtivas
A análise apresentada no InfraJur também foi relacionada ao movimento global de relocalização de fornecedores. Para Selma, a reorganização das cadeias produtivas diante das mudanças no cenário internacional abre espaço para a América do Sul como plataforma de produção e distribuição.
Nesse contexto, a instalação de uma empresa no Paraguai não deve ser analisada isoladamente. A localização dos fornecedores e a estrutura necessária para movimentar matérias-primas e produtos acabados fazem parte da equação.
A avaliação complementa os dados apresentados pela advogada especializada em Regime de Maquila e estruturação de projetos industriais e de serviços, Adria Báez Bolla. Segundo ela, o regime permite que empresas paraguaias importem insumos e bens de capital com suspensão de tributos aduaneiros e realizem a transformação ou montagem para posterior exportação.
O mecanismo prevê tributação de 1% sobre o valor agregado da operação e, segundo os dados apresentados no evento, já reúne mais de 350 empresas e gera mais de 37 mil empregos diretos.
Corredor logístico
Presidente do Conselho Internacional do Brasil Export, Joel Julius destacou que a importância do Paraguai para as empresas brasileiras também está relacionada à sua posição nas rotas de comércio do Mercosul. “O país exerce papel de corredor logístico, mas também vem ampliando sua participação como polo de produção e exportação”, afirmou.
No transporte fluvial, ele citou a operação da Rocktree, presente em mais de 12 países. Conforme os dados apresentados por ele, a empresa possui 426 barcaças na América do Sul, das quais 90% operam sob bandeira paraguaia.