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Danielle Clerman

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Nossos rios podem carregar muito mais do que cargas

O Brasil tem uma oportunidade extraordinária diante de si. Podemos utilizar nossos rios para reduzir custos logísticos, ampliar a competitividade, integrar diferentes modais e avançar na descarbonização. Mas podemos fazer ainda mais: podemos transformar infraestrutura em instrumento de desenvolvimento territorial.

O Brasil está prestes a dar um passo importante para mudar a forma como olha para seus rios. A previsão de novos leilões de hidrovias em 2027 coloca novamente em pauta uma questão que deveria estar no centro da estratégia de desenvolvimento do país: como transformar nossa enorme disponibilidade de recursos hídricos em corredores logísticos eficientes, sustentáveis e capazes de gerar desenvolvimento para os territórios que atravessam?

A resposta não está apenas na quantidade de toneladas que poderemos transportar.

As hidrovias são parte de uma estratégia maior de reequilíbrio da matriz logística brasileira, alinhada às diretrizes do Plano Nacional de Logística 2050. Em um país onde o transporte rodoviário ainda concentra a maior parcela da movimentação de cargas, ampliar o uso de ferrovias e hidrovias significa criar alternativas, aumentar a eficiência e reduzir a dependência de um único modal. E significa também olhar para a descarbonização.

Transportar grandes volumes por vias aquaviárias pode contribuir para reduzir o consumo energético e emissões associadas ao transporte de cargas, especialmente quando integrado a uma rede multimodal eficiente. É uma agenda que combina competitividade econômica e sustentabilidade — duas dimensões que já não podem ser tratadas separadamente. Mas há uma terceira dimensão que merece mais atenção: as pessoas.

Uma hidrovia não existe em um espaço vazio. Ela atravessa cidades, comunidades, áreas produtivas e ecossistemas. Em muitas regiões brasileiras, o rio é mais do que uma rota de transporte: é estrada, acesso a serviços, abastecimento e parte da própria vida das comunidades ribeirinhas. Por isso, quando falamos em novos corredores logísticos, precisamos assegurar que estamos indo além da engenharia e da economia: o desenvolvimento que estamos planejando para os rios também deve alcançar os territórios que vivem às suas margens.

Essa questão é essencial quando discutimos concessões e investimentos de longo prazo. Dragagem, sinalização, terminais, segurança da navegação e previsibilidade logística são fundamentais. Mas infraestrutura eficiente não deve ser medida somente pela capacidade de movimentar cargas. Deve também ser capaz de gerar oportunidades, integração territorial e melhores condições de vida. É nesse ponto que logística e território se encontram.

O projeto Territórios Portuários, do Instituto PORTa, trabalha justamente nessa perspectiva: aproximar a infraestrutura portuária das comunidades e dos territórios, criando espaços de diálogo, conhecimento e construção conjunta.

Essa visão pode — e deve — fazer parte da discussão sobre o futuro das hidrovias brasileiras. Porque, se os rios serão transformados em corredores logísticos, precisamos garantir que eles também sejam corredores de desenvolvimento.

O Brasil tem uma oportunidade extraordinária diante de si. Podemos utilizar nossos rios para reduzir custos logísticos, ampliar a competitividade, integrar diferentes modais e avançar na descarbonização. Mas podemos fazer ainda mais: podemos transformar infraestrutura em instrumento de desenvolvimento territorial. Talvez essa seja a grande provocação para os leilões que virão.

Não basta perguntar quanto uma hidrovia poderá transportar. Precisamos perguntar o que ela poderá transformar. Porque nossos rios podem carregar muito mais do que cargas. Podem carregar conexão, oportunidades e desenvolvimento para o Brasil.

Danielle Clerman. Engenheira, professora da Área de Infraestrutura da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e diretora de Operações do Intituto PORTa.

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