Mineração
Lynas fecha compra da Meteoric por R$ 3,5 bilhões
Negócio envolve o projeto Caldeira e ainda depende de aprovações societárias e regulatórias no Brasil
A australiana Lynas Rare Earths fechou acordo para comprar 100% da Meteoric Resources, dona do projeto de terras raras Caldeira, no Sul de Minas Gerais. A operação está avaliada em cerca de R$ 3,5 bilhões. A conclusão do negócio, porém, depende de uma série de aprovações, entre elas a autorização prevista no novo regime brasileiro de controle sobre ativos de minerais críticos e estratégicos.
A transação deverá ser um dos primeiros grandes testes do modelo criado recentemente pelo governo brasileiro para acompanhar mudanças de controle de empresas detentoras de direitos minerários considerados estratégicos.
A operação foi anunciada como aquisição de 100% da Meteoric pela Lynas, integralmente em ações, por aproximadamente 968 milhões de dólares australianos (A$ 968 milhões), cerca de R$ 3,5 bilhões. Os acionistas da Meteoric deverão receber 0,0207 ação da Lynas por ação e, concluída a operação, deter aproximadamente 5,9% da Lynas.
O valor representa um prêmio de 68,4% sobre o último preço de fechamento das ações da Meteoric antes do anúncio. A Lynas também concordou em disponibilizar até A$ 110 milhões em financiamento para que a Meteoric continue desenvolvendo Caldeira enquanto a aquisição passa pelas etapas de aprovação. Uma primeira parcela de A$ 35 milhões será liberada após a assinatura do acordo.
O Minera Brasil apurou que o governo brasileiro estava sendo informado sobre a negociação e deu sinal verde para o acordo, que deve ser aprovado pelo Conselho criado para avaliar operações societárias envolvendo ativos estratégicos para o país. A expertise da Lynas em refino chamou a atenção do BNDES, que avalia entrar no negócio.
Para a Lynas, a incorporação do Projeto Caldeira resulta em um aumento de 79% em seus recursos minerais existentes e de 26% em suas reservas de minério.
Processamento no Brasil
Além da transferência de controle, a aquisição coloca no centro da discussão o grau de processamento que poderá ser realizado no Brasil.
A nova política brasileira para minerais críticos e estratégicos tem entre seus objetivos ampliar o beneficiamento e a transformação desses recursos no território nacional. Nesse contexto, a entrada da Lynas, uma das principais empresas globais do setor e com experiência em etapas avançadas de processamento e refino, adiciona uma dimensão de agregação de valor ao negócio.
A Lynas opera a mina de Mt Weld, na Austrália, instalações de processamento no país e uma unidade de separação de terras raras na Malásia. A companhia é atualmente a única produtora comercial, fora da China, de óxidos separados de terras raras leves e pesadas.
No comunicado sobre a operação, a Lynas afirma que o minério de Caldeira poderá ser integrado às suas operações downstream já existentes na Malásia. Ao mesmo tempo, informou que estudará a possibilidade de realizar processamento adicional no Brasil.
Embora não tenha anunciado a construção de uma planta de separação no país, já existem conversas nesse sentido com o governo brasileiro, incluindo a possibilidade de participação do BNDES na planta de refino.
Recurso de 1,6 bi de toneladas
O projeto Caldeira é considerado o maior recurso conhecido de terras raras em argilas iônicas fora da China. O projeto possui recurso mineral estimado em 1,631 bilhão de toneladas, com teor médio de 2.317 partes por milhão (ppm) de óxidos totais de terras raras (TREO). A reserva mineral é estimada em aproximadamente 151 milhões de toneladas, com teor médio de 3.524 ppm.
Dentro dos recursos identificados, a Meteoric estima cerca de 802 mil toneladas de óxidos de neodímio e praseodímio (NdPr) e 41 mil toneladas de disprósio e térbio (DyTb). Os elementos são utilizados principalmente na produção de ímãs permanentes de alto desempenho, empregados em setores como veículos elétricos, geração de energia e equipamentos industriais.
O estudo definitivo de viabilidade divulgado em julho prevê investimento inicial de aproximadamente US$ 498 milhões e uma vida útil de 23 anos para o projeto.
A produção média projetada é de 12,5 mil toneladas anuais de TREO, incluindo aproximadamente 3.862 toneladas de NdPr e 127 toneladas de DyTb por ano. O projeto também prevê a produção de samário, gadolínio e ítrio.
Caldeira já recebeu licença ambiental preliminar, e a Meteoric informou que buscava obter a licença de instalação ainda em 2026.
Previsão de conclusão
Pelo cronograma divulgado pelas companhias, os documentos da operação devem ser enviados aos acionistas em dezembro. A assembleia para votar a aquisição está prevista para janeiro de 2027.
O Conselho de Administração da Meteoric recomendou unanimemente que os acionistas votem a favor da transação, na ausência de uma proposta superior e sujeito à conclusão do especialista independente de que a operação atende aos melhores interesses dos acionistas.
Se forem obtidas as aprovações societárias e regulatórias necessárias, a expectativa das empresas é concluir a aquisição até março de 2027.