A infraestrutura precisa cobrar compromissos reais no segundo turno
A consolidação do cenário eleitoral para o segundo turno da disputa presidencial coloca o Brasil diante de uma encruzilhada decisiva para o seu desenvolvimento de longo prazo. Enquanto a retórica política das campanhas costuma se concentrar em debates ideológicos e promessas genéricas de curto prazo, o setor de infraestrutura do País não pode se dar ao luxo de assistir à disputa de forma passiva. As decisões tomadas nas urnas nos próximos dias definirão os rumos dos investimentos em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e saneamento básico para os próximos quatro anos, e potencialmente para as próximas décadas. É urgente e indispensável que investidores, concessionárias, operadores logísticos e a sociedade civil debrucem-se sobre os planos de governo dos dois finalistas com olhar crítico, exigindo, agora mais do que nunca, clareza, previsibilidade e compromisso técnico.
O setor produtivo e o mercado de infraestrutura precisam ir além dos discursos de palanque e sabatinar os candidatos sobre questões centrais que afetam diretamente o Custo Brasil. O País exige respostas concretas sobre como as futuras gestões pretendem lidar com a segurança jurídica dos contratos de concessão e a governança das agências reguladoras (como Antaq, ANTT e Anac). A manutenção de regras do jogo estáveis e o respeito aos marcos legais vigentes, a exemplo dos novos modelos tributários e das regras de licenciamento ambiental, são premissas básicas para atrair o capital privado nacional e internacional. O setor não precisa de promessas de novos mega-aportes estatais irrealistas, mas sim de garantias de que o ambiente de negócios continuará atraente para parcerias público-privadas (PPPs) e concessões de longo prazo.
Outro ponto que exige escrutínio rigoroso é o modelo de planejamento logístico defendido por cada candidatura. O Brasil necessita saber como os presidenciáveis pretendem atacar os gargalos históricos que estrangulam o escoamento da produção nacional, tais como a saturação dos acessos terrestres aos grandes portos, a necessidade de expansão da malha ferroviária e a descarbonização dos transportes. Questões cruciais — como a renovação antecipada de grandes contratos de ferrovia, a modelagem de novos leilões de canais de navegação e a integração dos modais de transporte no Mercosul — precisam sair das intenções abstratas e ganhar metas operacionais mensuráveis e cronogramas críveis.
A infraestrutura é o esqueleto que sustenta o crescimento econômico, a geração de empregos e a inclusão social. Analisar e confrontar as propostas políticas do segundo turno não é uma escolha partidária, mas um exercício de responsabilidade institucional e cidadania econômica. A carga não espera, o comércio exterior não tolera ambiguidades e os investimentos de longo prazo exigem horizontes claros. Caberá às lideranças do setor exigir que os candidatos apresentem, com transparência e fundamentação técnica, seus planos para o futuro logístico do país. O voto em branco sobre o planejamento estrutural é um luxo que o Brasil não pode pagar.