O novo tabuleiro político brasileiro
Desde a redemocratização, em 1989, nenhum postulante ao Planalto que terminou o primeiro turno na segunda colocação conseguiu reverter o placar na etapa final. Embora a trajetória de Lula seja marcada pela superação de cenários adversos, a virada exigirá uma reformulação drástica na abordagem das ruas e no discurso do governo.
A força demonstrada pela direita nas urnas nesse domingo, dia 4, alterou de forma profunda o tabuleiro político do Brasil e impôs a Luiz Inácio Lula da Silva um nó tático que vai muito além da desvantagem numérica em relação a Flávio Bolsonaro. O avanço conservador na composição do Senado e no comando de governos estaduais de peso sinaliza que, mesmo na hipótese de uma virada no segundo turno, o ambiente institucional para um eventual novo mandato será de forte atrito e margem de manobra reduzida.
No Senado, onde o peso das bancadas dita o ritmo das grandes reformas e das indicações institucionais, o Partido Liberal consolidou uma hegemonia expressiva. A legenda de Flávio Bolsonaro assegurou dezesseis cadeiras no pleito, que se somam aos noves parlamentares com mandato em vigor, garantindo ao menos 25 assentos a partir de 2027 — com projeções internas apontando que a bancada pode se aproximar de trinta senadores. Esse contingente, somado a aliados de outras siglas do espectro conservador, desenha uma maioria capaz de controlar os rumos da Casa Alta.
São Paulo serve como vitrine cristalina dessa mudança de maré. O ex-secretário Guilherme Derrite e o deputado André do Prado ficaram com as duas vagas em disputa ao Senado pelo estado, deixando para trás nomes de alcance nacional do campo governista, como as ministras Marina Silva e Simone Tebet. No Palácio dos Bandeirantes, o governador Tarcísio de Freitas liquida a fatura ainda no primeiro turno, consolidando o maior colégio eleitoral do País como um polo de oposição ao Palácio do Planalto.
Essa nova correlação de forças cobra seu preço imediato na governabilidade. Com a derrota de Davi Alcolumbre no Amapá e a ascensão da maior bancada da história do PL, a disputa pela presidência do Senado ganha contornos inéditos. Nomes do núcleo duro do bolsonarismo, como o ex-ministro Rogério Marinho, despontam com favoritismo renovado para comandar o Legislativo, impondo uma derrota severa à estratégia articulada pelo Planalto ao longo do primeiro turno.
O mapa dos estados reforça a envergadura desse movimento. Além de São Paulo, a direita garantiu a recondução de aliados estratégicos logo na primeira etapa da votação, a exemplo de Jorginho Mello em Santa Catarina, Sergio Moro no Paraná e Eduardo Riedel em Mato Grosso do Sul. Essa capilaridade estadual entrega à candidatura de Flávio Bolsonaro uma máquina política azeitada e motivada para a etapa decisiva da campanha, contrastando com as dificuldades de articulação vistas na base governista.
Nos bastidores do QG petista, a leitura é de que a campanha do primeiro turno pecou pela apatia e pela falta de grandes agendas populares. Enquanto a candidatura de Flávio operou sob um desenho técnico, disciplinado pelo marketing e focado no eleitorado conservador, Lula transpareceu um ritmo aquém do necessário para conter a onda adversária. Entre conselheiros do presidente, ganha força a tese de uma licença do cargo para que ele se dedique exclusivamente ao corpo a corpo nas ruas, buscando resgatar a iniciativa política na reta final.
O obstáculo que se impõe ao petista é também estatístico e histórico. Desde a redemocratização, em 1989, nenhum postulante ao Planalto que terminou o primeiro turno na segunda colocação conseguiu reverter o placar na etapa final. Embora a trajetória de Lula seja marcada pela superação de cenários adversos, a virada exigirá uma reformulação drástica na abordagem das ruas e no discurso do governo.
Ainda que consiga o feito de reverter o resultado, o presidente encontrará um Congresso pronto para impor contrapesos severos. Um Senado sob controle da oposição terá poder de veto sobre a pauta econômica e pode tensionar as relações com o Supremo Tribunal Federal, reabrindo a pressão por processos de impeachment de ministros do STF e pautando anistias ligadas aos episódios de 8 de janeiro. Caso a vitória se confirme para Flávio Bolsonaro, o novo presidente terá caminho aberto no Legislativo para consolidar uma pauta de confronto institucional. As urnas deste domingo não apenas definiram os finalistas da disputa presencial, mas redesenharam fortemente a própria distribuição de poder no País para os próximos anos.
Francisco Quintella. Cientista políticoe e professor universitário.