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Portugal

Costa Boal se une a produtor brasileiro para fazer vinho no Cerrado Mineiro

Atualizado em: 9 de outubro de 2026 às 11:47
Hebert Neri Enviar e-mail para o Autor Público Brasil

António Boal, da Costa Boal, e Roni de Moraes Leme, da Bruma Alta, planejam rótulo conjunto com técnica portuguesa e uvas em Minas Gerais. A ideia nasceu em leilão beneficente para hospital do câncer

Na noite de 20 de junho deste ano, numa fazenda de Serra do Salitre, no Alto Paranaíba mineiro, um produtor português de vinhos das regiões do Douro, de Trás-os-Montes e do Alentejo ajudou a servir o vinho aos convidados. António Boal tinha atravessado o Atlântico para apoiar um novo amigo, o cafeicultor Roni de Moraes Leme, num leilão em benefício do Hospital do Câncer de Patrocínio. Doou uma garrafa e, no fim, juntou-se a três brasileiros para arrematar um dos destaques da noite: uma garrafa da vinícola do anfitrião, a Bruma Alta, vendida por R$ 80 mil, segundo a organização.

Pouco mais de três meses depois, em 2 de outubro, foi Roni quem cruzou o oceano. A convite do amigo, sentou-se à mesa do Costa Boal de Portas Abertas, evento realizado em Vila Real, no Norte de Portugal, ao lado dos outros três arrematantes. Ali os dois apresentaram o passo seguinte: estudam fazer, no próximo ano, um vinho assinado pelas duas casas, com uvas do Cerrado Mineiro e a enologia da Costa Boal, empresa familiar com raízes no Douro desde 1857.

“Somos embrionários e eles já estão muito avançados. Quero pegar todo esse conhecimento do Boal, unir com o nosso terroir e fazer um rótulo exclusivo”, diz Roni, durante encontro que celebrou o fim das vindimas.

Seis novos vinhos

No jantar de boas-vindas, no Hotel Borralha, António Boal fez questão de apresentar uma convidada. “Está aqui pela primeira vez a minha neta comigo, e vamos passar para a quinta geração”, afirma. Depois, pôs à prova quatro vinhos de colheitas entre 2017 e 2023, que ainda vão chegar ao mercado, servidos em garrafas sem rótulo.

Foi a primeira prova às cegas da casa, contou o enólogo Paulo Nunes, que brincou com a novidade: “Isto é porque o produtor não teve dinheiro para comprar o rótulo”. O desafio era distinguir os vinhos Douro de Trás-os-Montes. No fim, o anfitrião revelou apenas a procedência: vinhos do Douro, entre eles, um branco e um monocasta, e um único tinto de Trás-os-Montes. O catálogo da casa inclui monocastas de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Sousão e Tinto Cão, no Douro, e de Bastardo, Baga e Tinta Gorda, em Trás-os-Montes.

As tiragens são pequenas, o que tornam os vinhos bastante especiais. “Estamos falando de 1.000 garrafas de branco, 1.200 de um monocasta, 1.300 de um vinho de 2017 que irão para o mercado. Estamos falando de um relógio suíço, se assim podemos dizer”, afirmou António Boal.

Entre os seis vinhos apresentados na prova, dois vieram do Brasil. A Bruma Alta ainda não está no mercado, e Roni trouxe amostras de dois tintos da safra de 2025, engarrafadas naquela semana só para a viagem: um 100% Syrah e outro Syrah com 8% de Cabernet Sauvignon e cerca de oito meses de barrica.

Do café ao vinho

António Boal conta que a amizade entre ele e Roni começou por acaso, e que fez questão de visitar a fazenda em Minas Gerais. “Fiquei rendido, porque faz-me transparecer para o Douro, o Douro de altitude, o Douro de 700 metros, 600 metros”, afirma. No Cerrado, as vinhas ficam ainda mais alto: o primeiro vinhedo, em Serra do Salitre, está a pouco mais de 900 metros, e que o mais recente, a 25 quilômetros de Patrocínio, fica entre 1.070 e 1.080 metros, em solo de origem vulcânica.

Para o produtor, os vinhos dali têm o perfil que o consumidor procura. “São vinhos frescos, fáceis, que é que o mercado procura. Isso vai dar vinhos muito gastronômicos”, ressalta. O trabalho conjunto começa em escala mínima. “São microvinificações, quantidades muito pequenas, da nossa enologia, da nossa sabedoria do Velho Mundo aliada ao Cerrado Mineiro, e podemos construir ali uma marca também”, complementa.

Roni é produtor rural e cafeicultor, descendente de italianos e de portugueses. Com a mulher, Ieda Maria Paiva, plantou o primeiro vinhedo da Bruma Alta em 2022, com castas Cabernet Sauvignon, Marselan e Malbec, e colheu a primeira safra em 2024. Um segundo vinhedo recebeu Syrah, Malbec, Chenin Blanc e Sauvignon Blanc. “Nós não somos tradicionais no vinho. Estamos indo para a terceira safra”, diz ele, que durante a visita, provou um vinho da Costa Boal “com mais de 100 anos”.

“Quando nós descobrimos o Cerrado como região produtora, há 40 anos, não valia nada. Ninguém queria. E com o tempo, com as tecnologias, se mostrou um lugar muito produtivo”, destaca. “Como gostamos de vinho, decidimos também arriscar nisso, e está dando muito certo.”

Ali, a uva amadurece fora de época. “Nós cultivamos um sistema de dupla poda, ou vinhos de inverno. A gente faz duas podas por ciclo e colhe no inverno”, explica. É a estação em que faz frio e quase não chove na região, mas desta vez foi diferente: “Esse ano já houve chuva. Nunca houve chuva no inverno, faz muitos anos”.

É nesse ponto que Roni conta com o conhecimento de fora. “O Cerrado Mineiro precisa desses consultores de fora para elevar a região e fazer do modo certo. Ponto de colheita, modo de vinificação, isso tudo são conhecimentos que a gente pode melhorar a qualidade do vinho”, frisa.

As contas da vinha

No sábado, 3 de outubro, António Boal mostrou a origem de seus vinhos. O dia começou em Vila Real, na unidade de engarrafamento, onde uma máquina nova enche até 1.000 garrafas por hora. Segundo Boal, mais de 30% da produção segue para o exterior, sobretudo para o Brasil, o mercado mais maduro da Casa Boal, e para Angola.

O Canadá, para onde as vendas crescem há dois anos, deve assumir o segundo lugar. “O Brasil para mim tem um carinho especial, porque é o país que nós exportamos mais vinho. O Brasil é um país irmão”, diz Boal. No mercado brasileiro, vendem-se, sobretudo, os vinhos do Douro e do Alentejo, em encontros pequenos e dirigidos, em vez das grandes feiras.

A aposta nas gamas altas, explica ele, vem do custo. “Nós não compramos uva fora, os custos são mais altos”, assinala. “Se eu tivesse que vender uvas à data de hoje, teria um prejuízo na ordem dos 200 mil euros em 75 hectares de vinha”, comenta. E completa: “A gama baixa já há muito quem trabalhe. Está completamente esgotado isso”.

A Bruma Alta segue a mesma linha. “Nosso intuito não é produzir volume. Doze mil garrafas por ano, muito bem feito, para ir no mercado na época certa e para as pessoas certas”, diz Roni. Um consultor contratado na França aconselhou-o a plantar 100 hectares. Ele tem dois e não pretende aumentar.

“No vinho, a gente não precisa exportar nenhuma garrafa. Diferentemente da Europa, que tem que exportar vinho, no Brasil você não exporta nenhuma garrafa, pois o mercado interno absorve tudo. O que são 12 mil garrafas para 200 milhões de habitantes?”, indaga.

Nas vinhas de Favaios, aldeia do planalto de Alijó, a Costa Boal tem a Quinta de Arufe, a 550 metros de altitude, e produz o Moscatel Galego Branco. Já em Mirandela, em Trás-os-Montes, estão as vinhas velhas, com cerca de 70 anos, em parcelas de solo com xisto. A propriedade reúne atualmente 22 hectares de vinhas velhas.

Segundo a Costa Boal, trata-se da maior extensão contígua de vinhas velhas deste tipo em Portugal, reunindo uma grande diversidade de castas, entre elas, Alicante Bouschet, Baga, Touriga Nacional, Bastardo e Tinta Gorda, nas tintas, e Viosinho, Códega do Larinho, Fernão Pires, Malvasia Fina, Rabigato, Gouveio e Paga Dívidas, nas brancas.

Destino de enoturismo

A vinícola brasileira, por sua vez, será apresentada num jantar de gala, em 4 de junho do próximo ano, e o lançamento comercial de seu vinho, segundo Roni, ficará para dezembro. Antes, em 21 de novembro, ele reúne empresários em Uberlândia para discutir a criação do que chama de primeiro destino enoturístico do Cerrado Mineiro, “completo, com hotel, restaurante e vinícola”. O convite estende-se a investidores portugueses.

António Boal diz que não está sozinho na aposta. “Quando cheguei ao Cerrado Mineiro, percebi que existe muito produtor de vinho que já investiu e que vai investir na região, porque se vê ali uma atração fantástica para produzir belos vinhos”, afirma. Sobre o rótulo conjunto, arrisca uma previsão: “Tenho a certeza que vamos conseguir fazer um excelente vinho, que poderemos falar durante a próxima década.”

Esta reportagem integra uma série de matérias do jornal Público, de sua editoria Público Brasil, publicado pela Rede BE News, a partir da parceria firmada entre os dois veículos. São reportagens destacando as novidades e os desafios dos imigrantes brasileiros em terras lusitanas ou, nas palavras da equipe do Público Brasil, “histórias e notícias para a comunidade brasileira que vive ou quer viver em Portugal”. A matéria original pode ser acessada por este link.

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