Estilo BE
Política é, sim, assunto para crianças

As crianças têm voz e ouvidos atentos e a política faz parte de suas vidas. Como os pais podem falar sobre o tema? Fabiana Ratti, psicóloga e mestra em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), responde: “Além das conversas sobre política partidária, é importante construir o coração político – a responsabilidade com atos de cidadania que podem ser incentivados ao longo da infância e da adolescência em um lar.”
Para ela, quando a criança puder ser educada com bons valores, respeito, cuidado ao outro, cidadania e respeito, ela conseguirá ter autonomia e liberdade para escolher, no futuro, seus representantes. “Construir no coração da criança um amor pelo outro e por sua sociedade, isso sim é uma verdadeira política.”
Confira a entrevista exclusiva para a coluna:
Política é assunto para crianças?
Quando falamos em política logo pensamos em questões partidárias, mas a política, desde Aristóteles, é a ação do ser humano na Polis, os cuidados que temos de ter com nossa sociedade, a responsabilidade em preservar e cuidar do que é comum para que todos vivam bem e em sociedade. Esse posicionamento é muito importante que os pais tenham com seus filhos. As escolas hoje falam sobre as questões de reciclagem, sobre como preservar o meio ambiente, por exemplo, para não fazer o que alguns de nossos ancestrais fizeram devastando nosso ecossistema. O ato de cuidar da sociedade é política
Falar de política é uma forma de desenvolver o senso crítico?
Sim, quanto mais mostramos para a criança a responsabilidade dela cuidar de si e do outro, faz toda a diferença. Não adianta somente cuidar de si, mas é preciso respeitar o outro, limpar o espaço que usou para que outros encontrem limpo, não jogar papel no chão, cuidar dos brinquedos e doar quando não forem mais usar. Se essas noções forem transmitidas desde o começo, as crianças crescem com mais senso crítico e responsabilidade política.
Como temas como inclusão, preconceito e cidadania podem entrar na conversa?
Não adianta só falar, é preciso tomar atitudes – os atos são igualmente importantes. Não adianta falar, precisa incentivar a criança a agir de forma inclusiva e com respeito ao outro. Brincar de forma inclusiva, chamar outros amiguinhos para brincar. E isso não é uma tarefa fácil. Parece simples, mas não é. O aparelho psíquico, o emocional, automaticamente busca semelhantes, somos seres narcísicos. Gostamos de falar com pessoas que têm o mesmo estilo, os mesmos interesses, as mesmas brincadeiras.
Como facilitar esse processo?
Acolher o diferente exige mais trabalho interno, esforço, atenção. Falar de futebol com quem gosta de futebol é automático, não exige esforço, é lúdico, divertido. Quando precisa incluir alguém que tenha outros assuntos, outras características, não é tão automático, requer dedicação. Ainda vejo nas escolas muito bullying. Uma satisfação emocional de se colocar como superior, subjugar o outro, desprezar, fazer o outro se sentir mal. Um perigo que precisa ser cuidado em tratamento especializado e educação. E que a longo prazo, vai fazer toda a diferença para a escolha de candidatos e modo de pensar a relação com o outro, os cuidados com a sociedade e a política.
Por que é importante explicar por que há tanta polarização?
A polarização é o mais básico e simplista no ser humano. Bom ou ruim, frio ou quente, fora ou dentro. Nossa política partidária, desta forma, é bem infantilizada. O adulto teria condições de fazer abstrações muito maiores. Entre o 8 e o 80 existem muitas nuances, mas infelizmente priorizam o cabo de guerra entre o feio e o bonito por luta de poder, ao invés de priorizar a sociedade e os seres humanos. Se a criança puder ser educada com bons valores, respeito, cuidado ao outro, cidadania e respeito, ela conseguirá ter autonomia e liberdade para escolher, no futuro, seus representantes, e espero que possam trazer uma nova forma de fazer política.
É difícil para os pais falar sobre o tema sem doutrinar e fazer com que elas pensem como eles?
A criança vive em uma casa onde os pais estão falando de política, assim como qualquer assunto, é importante dividir com a criança, explicar seu ponto de vista. Tudo o que o adulto transmite para uma criança passa por seu véu, sua perspectiva e modo de pensar. Existem muitos adultos que não têm opinião própria, eles ainda votam emocionados por lutas que foram dos seus pais, não são as suas, não estão atualizados, isso é bem comum. E não há como os pais serem neutros, disfarçar, e nem precisa. Por isso, defendo que além das conversas sobre política partidária, é importante construir o coração político – a responsabilidade com atos de cidadania que podem ser incentivados ao longo da infância e da adolescência em um lar.
Falar de direitos das crianças pode ajudar a entender melhor?
Conversas e ações sobre direito podem ajudar muito. A criança ter noção sobre direitos e deveres dos adultos, das crianças e dos que são diferentes. É comum nas escolas ter sala separada para quem tem dificuldade de atenção. Se bem conduzido, todos respeitam, compreendem e ajudam os que têm mais dificuldades. As crianças e jovens terem noção do que é importante para elas, do respeito ao outro, de seus limites, ajuda muito.