Petróleo e Gás
Parada de refinaria pode deixar R$ 106 mi em petróleo sem processamento
Tecnologias de monitoramento buscam reduzir atrasos e aumentar a segurança das equipes
Uma parada de 24 horas em uma refinaria com capacidade para processar 250 mil barris de petróleo por dia pode deixar o equivalente a R$ 106 milhões em matéria-prima sem processamento, segundo uma estimativa da consultoria Trackfy/Wakecap. O cálculo considera o preço do petróleo Brent a US$ 78,55 por barril e não inclui outros impactos operacionais, logísticos e comerciais de uma interrupção.
O valor dimensiona os riscos associados às paradas de manutenção em um momento de elevada utilização do parque de refino brasileiro. No segundo trimestre de 2026, a Petrobras, responsável pela maior parte da capacidade nacional de refino, registrou fator de utilização (FUT) de 101,2%, recorde trimestral da companhia. Em abril e maio, o indicador chegou a 102,5%.
A pressão sobre a infraestrutura ocorre enquanto a produção brasileira de petróleo alcança novos recordes. Em agosto, o país extraiu 4,615 milhões de barris por dia, alta de 2,6% em relação a julho e de 18,4% na comparação com o mesmo mês de 2025, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O crescimento da extração, porém, não se converte automaticamente em oferta de combustíveis. O petróleo ainda precisa passar pelas refinarias para ser transformado em diesel, gasolina, querosene de aviação e outros derivados.
Na Petrobras, a elevada utilização das unidades se refletiu em uma produção média de 1,918 milhão de barris por dia de derivados no segundo trimestre, crescimento de 5,6% em relação ao primeiro trimestre. Cerca de 68% do volume correspondeu a produtos de maior valor agregado, como diesel, gasolina e querosene de aviação. A companhia também registrou recordes de produção de diesel S10, com 509 mil barris por dia, e de QAV, com 109 mil barris por dia.
O aumento da produção de derivados contribuiu para reduzir em 40% as importações de combustíveis na comparação com o trimestre anterior.
Coordenação
Com as unidades operando em níveis elevados de utilização, as paradas programadas exigem planejamento rigoroso para limitar o tempo de interrupção. Nem todas são motivadas por falhas: muitas correspondem às chamadas turnarounds, períodos destinados a inspeções, substituição de equipamentos, manutenção e cumprimento de exigências regulatórias.
Essas intervenções podem durar semanas e mobilizar milhares de trabalhadores em áreas industriais críticas. Atrasos podem ampliar os custos de contratação de equipes e equipamentos, comprometer o cronograma de retomada da produção e aumentar a exposição a riscos operacionais.
“Olhar apenas para o volume de petróleo que deixa de ser processado dá uma dimensão inicial do problema, mas não revela o custo total de uma parada. A conta envolve também manutenção, produtividade e contratação de equipes, equipamentos e toda a estrutura mobilizada durante esse período”, afirma o CEO Latam e vice-presidente global de Operações Industriais da Trackfy/Wakecap, Tulio Cerviño.
Na simulação utilizada pela empresa, uma paralisação de três dias em uma refinaria com processamento de 250 mil barris diários representa aproximadamente US$ 58,9 milhões em petróleo que deixa de ser processado, ou cerca de R$ 318 milhões em valores brutos. Os números não representam necessariamente perdas financeiras efetivas, pois não consideram a dinâmica de estoques, a eventual compensação da produção nem os demais efeitos econômicos da interrupção.
Sensores
Nesse cenário, tecnologias de Internet das Coisas (IoT) são utilizadas para ampliar o controle sobre as atividades durante as paradas programadas. Sensores, câmeras e dispositivos vestíveis, como capacetes e crachás inteligentes, permitem acompanhar a localização das equipes e a movimentação nas diferentes frentes de trabalho.
Segundo a consultoria, projetos desenvolvidos em diferentes segmentos industriais registraram otimização de 33% nos deslocamentos internos, aumento de até 67% na produtividade de equipes de manutenção e redução de aproximadamente 1,5% nos custos com seguros industriais.
Investimentos
O avanço da digitalização ocorre paralelamente a novos investimentos no parque de refino brasileiro. Entre os projetos anunciados estão R$ 26 bilhões para ampliar a integração entre a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) e o Complexo de Energias Boaventura, no Rio de Janeiro, e R$ 4,9 bilhões para a expansão da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco.
Para Cerviño, a tecnologia tende a ganhar espaço não apenas nas paradas programadas, mas também em intervenções emergenciais e na gestão cotidiana das plantas industriais.
“Os investimentos mostram que o setor está olhando para o futuro das refinarias. A tecnologia passa a fazer parte da estratégia de competitividade das empresas, porque permite que decisões operacionais sejam tomadas com base em dados, e não apenas na experiência de campo”, conclui.