Brasil Export
Transporte de retorno aumenta eficiência logística dos biocombustíveis
Operação ferroviária entre MT e SP aproveita viagens nos dois sentidos para movimentar derivados de petróleo e etanol de milho
O aproveitamento dos trens nas viagens de ida e volta para transportar diferentes tipos de combustíveis é uma das alternativas para reduzir custos logísticos e aumentar a eficiência da distribuição de biocombustíveis no Brasil. O modelo já é utilizado no corredor ferroviário entre Rondonópolis (MT) e Paulínia (SP), onde as composições levam derivados de petróleo para Mato Grosso e retornam carregadas com etanol de milho produzido na região.
A experiência foi apresentada pelo vice-presidente da Cosan, Guilherme Penin, durante o Fórum Nacional Brasil Export 2026, em Brasília. Segundo o executivo, a utilização dos vagões nos dois sentidos permite reduzir deslocamentos sem carga, melhorar o aproveitamento da infraestrutura existente e integrar a produção de combustíveis renováveis às cadeias tradicionais de distribuição.
Penin destacou o potencial brasileiro para ampliar a utilização de biocombustíveis no transporte, especialmente com a adoção de veículos híbridos movidos a etanol e alternativas ao diesel na frota pesada, como o biometano. Para ele, o crescimento desse mercado também depende de soluções logísticas capazes de acompanhar a expansão da produção.
O CEO da VLI, Fabio Marchiori, defendeu que a localização das novas plantas industriais seja definida considerando a infraestrutura ferroviária disponível e os projetos de expansão da malha. Segundo ele, a proximidade das matérias-primas não deve ser o único fator considerado na escolha das áreas para implantação dos empreendimentos.
“A produção do biocombustível tem que ser planejada sinergicamente com a construção das ferrovias”, afirmou.
Marchiori ressaltou que o transporte ferroviário oferece previsibilidade, competitividade e segurança para a movimentação de combustíveis. Entretanto, o longo prazo necessário à implantação de novas estruturas exige que as decisões sobre investimentos industriais e logísticos sejam tomadas de maneira coordenada.
A integração entre unidades produtoras, ferrovias, terminais e instalações de armazenagem foi apontada como condição para evitar gargalos no escoamento dos biocombustíveis. A falta de conexões adequadas pode elevar os custos de transporte e comprometer a competitividade dos novos empreendimentos.
Transporte marítimo
A diversificação dos mercados para o etanol também foi abordada pelo diretor de Relações Institucionais da Copersucar, Henrique Araújo. Ele defendeu uma agenda integrada de energia, logística e comércio exterior, incluindo o aproveitamento de dutos para o transporte do combustível e o desenvolvimento de alternativas para sua utilização na navegação.
Araújo citou uma operação de abastecimento com etanol realizada no Porto de Santos (SP), envolvendo um navio da CMA CGM. A experiência foi apresentada como demonstração das possibilidades de expansão do uso do biocombustível no transporte marítimo.
O executivo também destacou que a aproximação entre Brasil e Estados Unidos, dois dos principais produtores mundiais de etanol, pode favorecer o desenvolvimento de corredores internacionais voltados à utilização do combustível renovável.
Para isso, a ampliação da oferta nos portos dependerá de investimentos em estruturas de armazenagem, movimentação e abastecimento de embarcações. A disponibilidade desses serviços é considerada necessária para atender à demanda da navegação internacional e permitir maior utilização de combustíveis alternativos.
Novas matérias-primas
Além da infraestrutura de transporte, a expansão da produção de biocombustíveis depende de condições regulatórias adequadas para viabilizar projetos baseados em novas matérias-primas.
A gerente de Relações Institucionais da Acelen, Maira Krohling Peruzzo, destacou a importância de regras que proporcionem segurança aos investimentos e reconheçam novos insumos na cadeia produtiva.
A empresa prevê investimentos totais de R$ 1,5 bilhão em uma biorrefinaria baseada na macaúba, com integração entre o cultivo da matéria-prima, seu processamento e a produção de combustíveis renováveis.
O empreendimento contempla 144 mil hectares de plantio em Minas Gerais e na Bahia, além da instalação de unidades de esmagamento próximas às áreas produtoras. A estratégia busca reduzir a necessidade de transportar grandes volumes de matéria-prima antes do processamento industrial.
Segundo Peruzzo, o desenvolvimento dessas novas cadeias produtivas também exige previsibilidade regulatória, considerando os investimentos necessários desde a produção agrícola até a obtenção dos combustíveis.
As experiências apresentadas no Fórum demonstraram diferentes possibilidades de integração entre produção, transporte e distribuição, envolvendo o aproveitamento da capacidade ferroviária existente, a expansão das estruturas portuárias e a organização logística de novos empreendimentos de biocombustíveis.