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O Brasil é a voz da democracia dentro do BRICS, diz líder da oposição de Belarus

20 de outubro de 2026 às 14:44
Da Redação Enviar e-mail para o Autor Público Brasil

Para Sviatlana Tsikhanouskaya, líder da oposição democrática de Belarus, num BRICS formado por mais ditaduras do que por países democráticos, a presença no Brasil no grupo é importante

Líder da oposição democrática de Belarus, Sviatlana Tsikhanouskaya diz que o Brasil tem hoje papel fundamental dentro da nova composição do BRICS, grupo que, na origem, além de Brasil, abrigava Índia, China e Rússia, e, depois, absorveu a África do Sul. Mais recentemente, abriu as portas a países como Irã, Indonésia e Arábia Saudita e é desejado por Belarus . Na avaliação dela, o Brasil ganha importância, uma vez que o grupo hoje é composto por mais ditaduras do que democracias.

“Falando com franqueza, hoje, no BRICS, há muito poucos países realmente democráticos, e o Brasil é um deles. É maravilhoso que o Brasil possa pelo menos promover os valores, a necessidade de democratização, a prevalência do Estado de direito nas reuniões do BRICS”, afirma. E acrescenta: “O BRICS foi criado, suponho, principalmente por interesses econômicos, e acho que o comércio vai bem, mas é muito importante ter uma voz democrática nos diferentes blocos. E, aqui, o Brasil, claro, pode ser bastante ativo, embora, às vezes, seja difícil ser democrático entre ditadores. Ainda assim, é muito melhor do que um bloco só de ditaduras”.

Para ela, que se reuniu recentemente com a diplomacia brasileira e as de outros países da América Latina e da Europa, seria importante que o Brasil suspendesse, temporariamente, a compra de fertilizantes de Belarus, mais precisamente, potássio, fundamental para o agronegócio brasileiro, uma vez que as vendas desses produtos ajudam a financiar a ditadura de Alexander Lukashenko.

De qualquer forma, ela agradece o posicionamento do Brasil em fóruns internacionais em defesa da democracia e dos direitos humanos em Belarus. “Sou realmente grata ao Brasil pela posição em relação a Belarus e às forças democráticas. O país não está totalmente alinhado com a política do regime bielorrusso: enquanto trabalham com o regime, tentam entender a nossa luta por mudanças democráticas e apoiá-la. Lembro como o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre a repressão pós-eleitoral em 2020”, assinala.

Sviatlana entrou para a política em Belarus em 2020. “Eu era realmente uma dona de casa, sem experiência política”, descreve-se ela, quando substituiu o marido, o blogueiro Sergei Tikhanovsky, na disputa pela Presidência da República. Ele teve a candidatura barrada contra Lukashenko, no poder desde 1994, e foi preso em 29 de maio daquele ano. Meses depois, Sviatlana estava nas urnas contra Lukashenko. Contudo, dois dias após a votação, deixou o país em direção à Lituânia.

Na eleição de 9 de agosto, a Comissão Eleitoral Central declarou Lukashenko vencedor, com 80,1% dos votos, contra 10,1% de Sviatlana. A plataforma independente Holas, citada pelo gabinete dela, calcula outro resultado: ao menos três milhões de votos, ou 56% dos eleitores, para a candidata — extrapolação a partir de 1,26 milhão de usuários que registraram o voto na plataforma.

Houve denúncias de fraude e protestos em massa, seguidos de repressão; líderes da União Europeia disseram não reconhecer o resultado. Hoje, no exílio, ela lidera a oposição democrática bielorrussa — reconhecida em 2020 com o Prêmio Sakharov do Parlamento Europeu — contra o presidente há mais tempo no cargo na Europa. Veja trechos da entrevista online concedida por Sviatlana Tikhanovsky.

No início de setembro, a senhora se reuniu com diplomatas do Brasil e de outros países latino-americanos e europeus e destacou a experiência da América Latina com ditaduras e transições democráticas. O Brasil mantém relações formais com o governo de Lukashenko — em 2025, Minsk enviou um novo embaixador a Brasília, sinalizando a importância dessa relação — e, ao mesmo tempo, abriga uma comunidade democrática bielorrussa e o que ficou conhecido como “embaixada popular”. Como a senhora vê essa dualidade?

Sou realmente grata ao Brasil pela posição em relação a Belarus e às forças democráticas. O país não está totalmente alinhado com a política do regime bielorrusso: enquanto trabalham com o regime, tentam entender a nossa luta por mudanças democráticas e apoiá-la. Lembro como o Brasil votou a favor da resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre a repressão pós-eleitoral em 2020.

A experiência do próprio Brasil com a transição, com a reconciliação, com a reconstrução das suas instituições depois de períodos difíceis é exatamente o tipo de conhecimento que queremos aprender enquanto preparamos as nossas reformas. Entendo os interesses comerciais, entendo que governos trabalham com governos e que, em Belarus, Lukashenko está no poder de fato, embora as pessoas e muitos países democráticos não tenham reconhecido a legitimidade dele depois de 2020, até agora. Entendo tudo isso, mas é muito importante para nós que o Brasil esteja tentando equilibrar: não apenas trabalhar plenamente com ditadores, sem prestar atenção aos abusos de direitos humanos e à repressão em Belarus.

O Brasil ajudou a criar o BRICS, e Belarus é um dos países que querem entrar nesse bloco econômico e político. Mas o BRICS se tornou algo muito diferente da ideia de 15 anos atrás: de certa forma, tóxico, num mundo em que o governo de Donad Trump empurra cada país a cuidar dos próprios negócios. Lula foi eleito para o terceiro mandato e busca a reeleição defendendo a democracia. A senhora acha que o peso da Rússia dentro do BRICS torna possível para um país como o Brasil manter um diálogo significativo sobre democracia em Belarus?

Falando com franqueza, hoje, no BRICS, há muito poucos países realmente democráticos, e o Brasil é um deles. Por um lado, é maravilhoso que o Brasil possa, pelo menos, promover os valores, a necessidade de democratização, a prevalência do Estado de direito nas reuniões do BRICS. Mas eu queria olhar a situação do ponto de vista de Belarus. O regime bielorrusso, neste momento, serve aos interesses da Rússia. Belarus não é um ator independente em nenhum bloco.

O BRICS foi criado, suponho, principalmente por interesses econômicos, e acho que o comércio vai bem, mas é muito importante ter uma voz democrática nos diferentes blocos. E, aqui, o Brasil, claro, pode ser bastante ativo, embora, às vezes, seja difícil ser democrático entre ditadores. Ainda assim, é muito melhor do que um bloco só de ditaduras. É como sentar em duas cadeiras, mas ter um país pró-valores nesse bloco de inimigos da democracia também é muito importante.

No Brasil, há quem pense que o Brasil deveria deixar o BRICS. Como vê isso?

Não consigo medir o humor da sociedade brasileira. Se o país, se o seu povo acha que esse bloco é tóxico e que o Brasil tem de sair dele, claro que o governo, tenho certeza, ouvirá a voz do povo. Mas, do nosso ponto de vista, ficaríamos felizes se o Brasil saísse, porque isso mostraria a sua verdadeira atitude em relação aos países que subjugam outras nações, que fazem guerras, e assim por diante. Mas, se o Brasil ainda está lá, é importante para nós que sejam a voz da democracia e dos valores.

O potássio bielorrusso é fundamental para a agricultura brasileira. Qual é a importância do mercado brasileiro para Belarus hoje. Os fertilizantes poderiam se tornar a ponte que permitiria a uma futura Belarus democrática diversificar sua economia para longe da Rússia, tendo o Brasil como parceiro?

O potássio é uma das fontes econômicas mais importantes do regime, uma fonte de moeda forte. Ele financia o mesmo sistema que reprime o próprio povo e viabiliza também a guerra da Rússia. As sanções ao potássio não são para punir os agricultores brasileiros nem o abastecimento global de alimentos. São sobre cortar um recurso-chave que mantém o regime vivo.

Uma Belarus democrática e transparente seria, na verdade, um parceiro comercial de longo prazo mais confiável, com menos riscos políticos e sem a exposição reputacional de lidar com uma ditadura sancionada. Cabe também ao governo brasileiro decidir se há possibilidade de diversificação, de encontrar uma fonte diferente de potássio. Seria bom para nós e para o nosso povo se o Brasil interrompesse temporariamente esse comércio com Belarus até que ocorram mudanças no nosso país.

Quando a guerra começou, em 2022, o território bielorrusso foi usado pela Rússia na invasão, e o Brasil se posicionou como um possível mediador do conflito, mas é visto como pró-Rússia. No cenário em que a guerra termina com a Ucrânia alcançando seus objetivos — a independência —, como a senhora acha que as relações entre uma nova Belarus e uma nova Ucrânia serão vistas pelo chamado Sul Global, e como essa dinâmica vai se desenrolar com o Brasil?

Em geral, grandes empresas e investidores não se sentem seguros em Belarus, porque são relações corruptas, esquemas corruptos. O regime não pode ser parceiro confiável em nenhum negócio se você não está muito próximo da família. Entendo que possa haver acordos de longa duração, mas, ainda assim, tenho certeza de que, quando Belarus for democrática, com instituições e leis fortes, o Brasil e outros países se sentirão muito mais seguros. Porque, a qualquer momento, esse regime pode chantagear, pode romper acordos. Não é estável de jeito nenhum.

Se Lukashenko deixasse o poder amanhã, a oposição democrática estaria pronta para governar no dia seguinte? Haveria eleições livres? Como seria esse cenário?

Acredito que as mudanças em Belarus virão mais cedo ou mais tarde, porque a nossa sociedade mudou, e 2020 mostrou claramente ao mundo inteiro que as pessoas querem mudanças. Nesses seis anos, conseguimos não só manter o regime em estresse constante, mas também construir instituições alternativas de poder, porque, quando o momento chegar, haverá um período muito curto para realizar eleições livres e justas, e temos de estar preparados.

Há apenas duas escolhas para Belarus: ou uma colônia russa, um apêndice russo, um satélite, ou um país pró-europeu, com vizinhos normais, parceiros confiáveis, e com Belarus como parte da União Europeia, por exemplo. Cabe a Belarus e ao povo escolher as alianças. E Lukashenko é muito fraco. Ele sempre fez esse papel de gangorra entre a Rússia e a Europa. Agora, é impossível, porque a Europa está se mantendo firme nos seus princípios.

Como os bielorrussos veem o 17 de Setembro? A senhora acha que o regime conseguiu remodelar a memória dessa data nacional como símbolo de unidade nacional, em vez de repressão soviética?

Muitas das datas celebradas pelo regime do nosso país não correspondem à história real. Muitas vezes, é uma tentativa de reescrever a nossa história real ou de nos arrastar para a interpretação russa ou soviética da história, porque, agora, estou na Polônia e entendo o que o 17 de Setembro significa para o povo polonês. É um dia muito triste para eles, mas em Belarus o regime comemora, tipo, a unidade.

Uma data não pode ser interpretada de maneira tão diferente; somos países vizinhos. Por isso, essa data é artificial: o regime comemora para mostrar à Rússia, a Putin, que estamos juntos. Foi uma política de Lukashenko, e as pessoas simplesmente seguiram as iniciativas do regime, porque não tínhamos escolha. Acredite, as pessoas não vão às ruas para comemorar. Pode haver eventos organizados pelo regime, e sabemos como são organizados: gente de diferentes empresas, de escolas, de hospitais, levada à força a essa comemoração só para mostrar a imagem.

Vimos a adoção em massa do ucraniano como língua do país, especialmente depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, mas, sobretudo, a partir de 2014. Em caso de mudança de regime em Belarus, veríamos mais leis para fomentar o desenvolvimento e a adoção do bielorrusso, que vem diminuindo nos últimos dez anos? A senhora tem alguma política em mente?

Entendemos plenamente que preservar a nossa identidade nacional é, em si, um ato de resistência contra um regime que trata a língua e a cultura como ameaças a ele, e essas ameaças precisam ser suprimidas. Hoje, até falar bielorrusso pode causar prisão, porque a língua agora é uma forma de resistência. Cada vez mais crianças, no dia a dia, começam a falar bielorrusso. Ajudem-nos não só a preservá-la, mas a fortalecê-la, por meio da mídia independente, de iniciativas culturais, de programas educacionais no exílio. Vamos tornar o bielorrusso sexy de novo para os bielorrussos. Digo sempre que, quando as mudanças chegarem a Belarus, ninguém será obrigado a falar bielorrusso. Será um processo.

Se uma eleição genuinamente livre fosse realizada, a senhora concorreria de novo? E acredita que ganharia?

É uma pergunta complicada para mim, porque, em 2020, percebi quem eu era. Eu era realmente uma dona de casa, sem experiência política. Sabia que as pessoas votavam em mim não por causa da minha carreira ou porque eu queria ser presidente. Votaram contra Lukashenko, e foi prometido às pessoas, em 2020, que, se vencêssemos, muito rapidamente faríamos eleições livres e justas, em que qualquer um pudesse participar. Hoje, entendo a minha experiência, a rede de contatos que tenho no mundo inteiro, a minha influência, se me permitem dizer, pelo menos na nossa região.

Entendo que sou muito apoiada pelo povo bielorrusso. Mas também entendo que nenhuma outra pessoa teve a oportunidade de ganhar tudo isso como eu. E nunca quis que as pessoas competissem comigo nesses anos. Eu disse que não vou participar das eleições e que, por isso, não me vejam como oponente. Vamos caminhar juntos. Não é hora de competição agora. Porque entendo que, para muitos outros líderes na política, talvez na sociedade civil, as pessoas não têm essas possibilidades. E entendo que não estamos em condições iguais. Por isso, sim, vou cumprir a minha promessa de não participar.

Mas digo que servirei ao país em qualquer função. Nunca tive o sonho de ser presidente, mas quero ser útil a Belarus. Para mim, é importante construir instituições fortes, porque somos alvos do regime. Ninguém sabe o que pode acontecer comigo ou com qualquer outra pessoa a qualquer momento, porque pessoas estão desaparecendo do movimento democrático. Não é muito agradável estar nesta situação, mas entendo a minha responsabilidade e quero estar com as pessoas pelo tempo que eu puder.

Esta reportagem integra uma série de matérias do jornal Público, de sua editoria Público Brasil, publicado pela Rede BE News, a partir da parceria firmada entre os dois veículos. São reportagens destacando as novidades e os desafios dos imigrantes brasileiros em terras lusitanas ou, nas palavras da equipe do Público Brasil, “histórias e notícias para a comunidade brasileira que vive ou quer viver em Portugal”. A matéria original pode ser acessada por este link.

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