O primeiro corredor verde de etanol marítimo do mundo entra em operação
Na última segunda-feira, dia 19, o CMA CGM Iron — porta-contêineres de 13 mil TEU, equipado com o primeiro motor tricombustível certificado para etanol do mundo — foi abastecido no Terminal de Contêineres (Tecon) Santos com etanol da Copersucar. Não foi a primeira vez: o mesmo navio recebeu etanol em Santos (SP) em julho, numa operação noticiada pelo BE News como marco histórico. A diferença entre julho e outubro é a que separa o pioneirismo da política: a CMA CGM, a Copersucar, a Bunker One e a Autoridade Portuária de Santos (APS) anunciaram que as operações de abastecimento marítimo com etanol passam a ser regulares, com novos abastecimentos previstos até o final do ano e uma cadeia logística completa: produção nas usinas associadas à Copersucar, transporte pela Evolua Etanol, armazenagem pela Ageo Terminais e abastecimento no Tecon, administrado pela Santos Brasil, com protocolo desenvolvido especificamente pela Bunker One para o baixo ponto de fulgor do combustível. Santos não está mais testando o biobunker. Santos está operando o primeiro corredor verde de abastecimento marítimo com etanol do mundo.
O número que o presidente da Copersucar, Tomás Manzano, colocou na mesa confirma as expectativas sobre biobunker: substituir 10% do consumo de combustíveis marítimos mundiais por etanol, considerada a equivalência energética, representaria mercado potencial adicional de aproximadamente 50 bilhões de litros por ano. A produção brasileira prevista para a safra 2026/27 é de 41,88 bilhões de litros. O mercado que está sendo inaugurado em Santos tem escala para absorver mais do que o Brasil produz hoje de etanol total, sem tirar um litro do mercado automotivo, do SAF ou de qualquer outra aplicação. É a fronteira de demanda que a indústria sucroenergética brasileira precisava para justificar expansão de capacidade produtiva com horizonte de longo prazo.
A cadeia que viabilizou a operação deste mês merece análise específica, porque é exatamente a cadeia que precisará ser escalada nos próximos anos. A Evolua Etanol conecta as usinas ao porto por logística terrestre. A Ageo Terminais armazena o produto no porto com especificações adequadas para uso marítimo. A Bunker One desenvolveu, após meses de estudo e treinamento, um protocolo de abastecimento que resolve o principal desafio técnico do etanol como combustível marítimo, seu baixo ponto de fulgor, que exige procedimentos de segurança distintos dos usados com bunker convencional. O Tecon Santos forneceu o espaço físico e a infraestrutura de atracação. E a APS criou o ambiente regulatório que permite a operação dentro do porto organizado. Cada elo dessa cadeia foi construído especificamente para esse produto, nesse porto, nessa operação. Replicar o modelo em Paranaguá (PR), em Suape (PE), no Pecém (CE) ou em qualquer outro porto brasileiro exigirá reconstruir cada elo, o que é possível, mas não automático.
A transição de pioneirismo para operação regular em Santos é o momento em que a agenda regulatória do biobunker precisa acelerar de forma correspondente. O Ministério de Minas e Energia realizou reunião sobre o projeto de lei para regulamentação do biobunker em outubro. A operação regular em Santos cria um dado empírico que a regulamentação precisava: o modelo funciona comercialmente, a cadeia logística existe e a tecnologia de motor está disponível em frota crescente: a DNV reporta 159 navios já operando com motores compatíveis e mais de 450 previstos até 2030. Com esses dados, o projeto de lei deixa de ser regulamentação de hipótese e passa a ser regulamentação de realidade. Que o cronograma legislativo responda a essa mudança de status com a urgência que ela merece, especialmente com a Organização Marítima Internacional (IMO) prevendo avanço nas regras internacionais de biocombustíveis marítimos no próximo mês.
A frase do CEO da Bunker One para a América Latina, Flavio Ribeiro — “Santos se posiciona como destino estratégico para armadores interessados em reduzir emissões” — é o resultado que a política energética brasileira deve ter como objetivo explícito: transformar o maior porto do hemisfério sul em hub de abastecimento de biocombustível marítimo para as rotas do Atlântico Sul. Navio que escolhe Santos para abastecer com etanol em vez de abastecer com bunker em Rotterdam ou Singapura está deixando no Brasil não apenas o valor do combustível. Está consolidando Santos como ponto de escala estratégico nas rotas que o acordo Mercosul-União Europeia e a expansão do comércio com a Ásia tornam cada vez mais relevantes. O corredor verde inaugurado em 19 de outubro é mais do que descarbonização. É posicionamento geoeconômico