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Luiz Policarpo

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No comércio exterior, a vantagem competitiva será de quem decidir antes

Acredito que a próxima etapa da digitalização do comércio exterior será menos sobre colocar novas ferramentas à disposição das equipes e mais sobre fazer melhor uso das informações que as empresas já possuem ou podem acessar.

Durante muito tempo, digitalizar o comércio exterior significou trocar papéis por sistemas, reduzir o uso de planilhas e automatizar tarefas manuais. Foi um avanço importante, mas o setor chegou a um momento em que apenas ter mais tecnologia ou mais dados já não resolve o problema. Empresas que importam ou exportam precisam acompanhar preços, fornecedores, fretes, câmbio, prazos, rotas e mudanças regulatórias. Além disso, guerras, disputas comerciais e problemas em rotas marítimas podem mudar rapidamente aquilo que havia sido planejado. 

Esse cenário ficou ainda mais evidente nos últimos anos. A Comissão das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) estima que o comércio global de bens tenha alcançado cerca de US$ 13,7 trilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 12,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo, o órgão chama atenção para o aumento de custos de energia, transporte e logística provocado, entre outros fatores, pelas tensões geopolíticas. Ou seja, o comércio internacional continua crescendo, mas ficou mais difícil planejar uma operação. 

Quem trabalha no setor conhece bem essa realidade. Uma mudança no preço de um fornecedor, uma nova tarifa ou uma alteração no custo do frete pode exigir uma revisão de estratégia. Muitas vezes, porém, as informações necessárias para tomar essa decisão estão espalhadas em diferentes sistemas, bases de dados e planilhas. É nesse ponto que vejo um dos usos mais relevantes da inteligência artificial no comércio exterior.

O valor da tecnologia não está simplesmente em gerar um relatório mais rápido ou responder a uma pergunta, mas em ajudar empresas a reunir informações que antes eram analisadas separadamente e mostrar o que merece atenção naquele momento. Um importador, por exemplo, pode precisar acompanhar quem está comprando determinado produto, quanto está pagando, de quais fornecedores está comprando e por quais rotas a mercadoria está chegando. Fazer esse levantamento manualmente exige tempo. Com o uso de inteligência artificial, esses dados podem ser cruzados para identificar mudanças de preço, novos fornecedores ou oportunidades de renegociação. A decisão continua sendo do profissional, mas a diferença é que ele pode chegar a ela com mais informação e em menos tempo. 

Essa distinção é importante porque boa parte da discussão sobre inteligência artificial ainda gira em torno de quais tarefas ou empregos poderão ser substituídos. No comércio exterior, vejo uma questão mais imediata. Quanto do tempo de profissionais qualificados ainda é gasto procurando informações, atualizando planilhas e reunindo dados que já existem? 

Essa questão ganha ainda mais peso quando olhamos para o tamanho do segmento. Só em 2025, o Brasil contabilizou mais de 60 mil empresas importadoras e 29.818 exportadoras, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Quanto maior esse mercado, maior também é a quantidade de informações que precisam ser analisadas diariamente. E não parece provável que o comércio internacional fique mais simples nos próximos anos. 

Por isso, acredito que a próxima etapa da digitalização do comércio exterior será menos sobre colocar novas ferramentas à disposição das equipes e mais sobre fazer melhor uso das informações que as empresas já possuem ou podem acessar. Isso também muda a rotina dos profissionais. Se uma tecnologia consegue assumir parte do trabalho de buscar, organizar e comparar informações, sobra mais tempo para aquilo que exige experiência e conhecimento do negócio, como negociar, avaliar riscos, escolher fornecedores e definir estratégias. 

A inteligência artificial não elimina a imprevisibilidade do comércio exterior. Uma guerra continuará afetando rotas. Uma mudança regulatória continuará exigindo adaptação. O câmbio continuará oscilando e o preço do frete continuará sujeito a fatores que nenhuma empresa controla. A diferença está na capacidade de perceber essas mudanças e responder a elas. Em um mercado no qual muitas empresas conseguem acessar informações semelhantes, acumular dados deixa de ser suficiente. Cada vez mais, a vantagem estará em saber o que fazer com eles e conseguir tomar uma boa decisão antes.

Luiz Policarpo, fundador e CEO da Einship, logtech brasileira especializada em comércio internacional, que desenvolve soluções de inteligência de dados e gestão de operações de comércio exterior. 

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