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Hudson Carvalho

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F.O.M.O.: do medo de ficar para trás à decisão de evoluir

Dominar o F.O.M.O. não é eliminar a inquietação. É submetê-la ao julgamento: reconhecer o estímulo, avaliar sua relevância, estabelecer prioridades, aprender com profundidade e comprovar a aplicação do conhecimento.

F.O.M.O. é a sigla de Fear of Missing Out, expressão inglesa que descreve o receio persistente de que outras pessoas estejam vivendo experiências gratificantes das quais estamos ausentes. Usando uma expressão popular eu diria que é algo parecido com a sensação permanente de que “a grama do vizinho é mais verde” do que a nossa. Em 2013, Andrew Przybylski e colegas associaram o fenômeno à menor satisfação de autonomia, competência e pertencimento, além de relacioná-lo ao uso de redes sociais, onde todos são felizes, perfeitos e tem solução para qualquer problema.

Em 2021, uma metanálise de Mehdi Akbari e colegas, com mais de 55 mil participantes, examinou associações entre F.O.M.O. e uso da internet. Outra revisão, na Internet Research, reuniu 58 estudos e apontou limites metodológicos. Essas pesquisas tratam sobretudo do ambiente digital; não demonstram efeitos sobre decisões de carreira.

É essa distinção que me interessa. Um colega é promovido. Outro conclui uma formação internacional. Nas redes, multiplicam-se certificados e conquistas. Surge a pergunta: estamos ficando para trás?

Tecnologias transformam processos, negócios evoluem e competências precisam ser renovadas. Atualizar-se é necessário, sim, mas reagir a toda novidade, não. A trajetória alheia não pode substituir nossos próprios critérios de escolha.

Nem tudo o que deixamos passar representa uma perda.

Tentando acompanhar todas as oportunidades, confundimos atividade com progresso. Acumulamos credenciais, mas perdemos tempo para estudar e praticar. Participar, pura e simplesmente, não significa aprender. O aprendizado só se converte em desenvolvimento profissional quando amplia nossa capacidade de agir.

Na gestão de pessoas, encontrei currículos extensos com pouca expressão na prática. Por outro lado, vi profissionais que escolheram formações com critério e transformaram conhecimento em resultados. A diferença estava na clareza de propósito.

Por isso, não considero o medo um orientador adequado para o desenvolvimento de nossas carreiras. Prefiro tratar o F.O.M.O. como um sinal a investigar, não como uma ordem a obedecer. Um desconforto que merece atenção.

Proponho um percurso de cinco etapas para o autodiagnóstico: reconhecer, avaliar, priorizar, aprender e aplicar.

Reconhecer é identificar a inquietação sem presumir que ela revela uma necessidade real. Avaliar exige distinguir uma lacuna verdadeira de competência da simples reação ao sucesso alheio. Priorizar significa escolher o que contribui para nossos objetivos. Aprender demanda método e dedicação. Aplicar permite verificar se houve mudança concreta no desempenho.

Antes de investir tempo nessa atividade, faço-lhe três perguntas: o que exatamente teme perder? Como essa oportunidade se relaciona com suas responsabilidades? Que resultado espera alcançar?

Um gestor observa colegas discutindo inteligência artificial. Inscrever-se em vários cursos não resolve sua inquietação. Funcionará muito melhor, identificar aplicações relevantes para sua área. Depois, selecionar uma formação consistente e estabelecer como utilizá-la para aperfeiçoar processos e decisões.

Depois, avaliar: que problema passou a resolver? Qual decisão fundamenta melhor? Sem resultados observáveis, nenhum certificado comprova desenvolvimento.

O mesmo raciocínio vale para o exercício da liderança. O conhecimento amadurece na prática e no contato com perspectivas diferentes. Relações profissionais qualificadas aproximam a aprendizagem dos desafios reais.

É nessa perspectiva que situo a BE Executive Academy, iniciativa do Grupo Brasil Export estruturada em três pilares: conhecimento de alto nível, aplicação imediata e networking qualificado. Entendo que a formação executiva deve fortalecer a capacidade de interpretar cenários e produzir resultados, em vez de alimentar uma corrida por credenciais.

Por melhor que seja, nenhuma instituição substitui nossa responsabilidade por aprender. Toda escolha envolve renúncia: dedicar recursos a uma formação significa renunciar a outras alternativas. Não podemos interpretar cada oportunidade não aproveitada como derrota.

A experiência, porém, não assegura competência permanente. Para quem lidera, reconhecer lacunas e continuar aprendendo influencia toda a equipe. Dar o exemplo continua sendo uma das primeiras obrigações morais de quem lidera.

A comparação pode revelar tendências e competências emergentes. Informar nossas escolhas, não governa-las. A epígrafe nos recorda o custo de medir a própria trajetória pela régua alheia.

Dominar o F.O.M.O. não é eliminar a inquietação. É submetê-la ao julgamento: reconhecer o estímulo, avaliar sua relevância, estabelecer prioridades, aprender com profundidade e comprovar a aplicação do conhecimento. Assim, o desenvolvimento deixa de ser reação ao sucesso dos outros e se torna decisão consciente.

O maior risco não é ficar de fora do que os outros estão fazendo. É deixar de construir o que somos capazes de realizar.

Hudson Carvalho é diretor-executivo da BE Executive Academy, consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas e especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento executivo. Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras.

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