Eleição brasileira: uma análise forense
Análise forense independente dos dados do TSE não encontra sinal de fraude no segundo turno de 2026. Estudo de 19.369 urnas mostra que a prorrogação do horário rendeu cerca de 31 mil votos, contra uma margem de 4,43 milhões, e que a distância entre a direita e Flávio Bolsonaro já existia no primeiro turno
Uma análise independente dos arquivos públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conduzida pelo executivo e analista do setor de energia Felipe Germini, não encontrou nenhuma das marcas estatísticas de adulteração na contagem do segundo turno presidencial de 25 de outubro. O estudo cobriu os resultados dos 5.571 municípios nos dois turnos, os registros de horário (logs) de 3.857 urnas sorteadas e os boletins de urna de outras 19.369, cada uma comparada com o seu próprio boletim do primeiro turno.
A análise também testou a principal queixa da campanha derrotada, a prorrogação do horário de votação determinada às 16h32 por ministro do Supremo Tribunal Federal. Segundo os registros das próprias urnas, cerca de 31 mil votos foram dados depois das 17h em todo o País, e cerca de 2.500 depois das 17h15. A margem de Luiz Inácio Lula da Silva foi de 4.430.191 votos.
Principais conclusões
- A prorrogação não decidiu a eleição: Os registros das urnas mostram cerca de 31 mil votos depois das 17h no segundo turno (intervalo de 95%: 26 mil a 35 mil), contra cerca de 3,55 milhões no primeiro turno, quando houve filas longas. Mesmo que todos esses votos fossem de Lula, cobririam 0,7% da margem.
- A contagem não tem as marcas de adulteração: Nenhuma urna da amostra registrou comparecimento acima de 100%. Nenhum município passou de 95% de comparecimento. A correlação entre comparecimento e votação de Lula, assinatura clássica de urna engordada, é de 0,05. Os últimos dígitos das contagens são aleatórios, com qui-quadrado de 10,2 (Lula) e 7,1 (Flávio), abaixo do limite de suspeita de 21,7.
- Não houve viradas extremas: A virada mediana para Lula foi de 2,9 pontos por seção e 2,4 pontos por município. Nenhuma das 19.369 urnas se moveu mais de 14 pontos em qualquer direção. Lula ganhou participação em 97% dos municípios, mas o vencedor mudou em apenas 211, todos com vantagem estreita de Flávio no primeiro turno.
- A virada acompanha o voto em terceiros candidatos: Nas seções onde Cury, Renan Santos, Caiado e os demais tiveram menos de 5% no primeiro turno, Lula ganhou 1,8 ponto. Onde tiveram mais de 10%, ganhou 3,4. Uma contagem manipulada não teria como reproduzir esse padrão.
- Não há sinal mensurável de eleitores trocando de lado: Por inferência ecológica, os 9,3 milhões de votos de terceiros se dividiram quase ao meio (cerca de 4,9 milhões para Flávio e 4,4 milhões para Lula). A margem veio de cerca de 5,9 milhões de eleitores que não deram voto válido no primeiro turno e votaram em Lula no segundo.
- A distância entre a direita e o seu candidato já existia em 4 de outubro: Na mesma cédula do primeiro turno, os partidos de direita tiveram 64,6% dos votos de direita e esquerda para deputado federal e 62,1% para o Senado. Flávio teve 51,0% dos votos dos dois candidatos a presidente. A diferença ia de 0,9 ponto no Rio Grande do Sul a 14,6 em Minas Gerais.
- O efeito dos governadores não explica o segundo turno: Controlando o voto em terceiros e o patamar de Flávio, a força dos candidatos de direita a governador não altera a virada municipal (coeficiente de 0,002 ponto por ponto).
- O mercado tratou o resultado como definitivo: Nesta segunda-feira, o dólar chegou a R$ 5,60, alta de 12%, e a B3 acionou o circuit breaker às 9h57. Em 5 de outubro, o mesmo mercado havia subido 7,70% com a contagem do primeiro turno, feita pelas mesmas urnas e pelo mesmo tribunal.
- Houve uma falha institucional, de outra natureza. A ordem de prorrogação veio do STF, não do TSE, depois do início da votação, e foi aplicada de forma desigual entre seções. As duas campanhas haviam pedido mais tempo. O estudo recomenda que o TSE estabeleça, por escrito e com antecedência, quem pode alterar horários de votação.
“A lição institucional não é que a eleição foi roubada.
É que o Brasil não tem uma regra clara sobre
quem pode mudar as regras no dia da eleição”
Felipe Germini
Números-chave | ||
| Indicador | Valor | Base |
| Margem de Lula no 2º turno | 4.430.191 votos (51,79%) | TSE, 100% das seções |
| Votos depois das 17h no 2º turno | cerca de 31 mil (26 mil a 35 mil) | Logs de 3.857 urnas |
| Votos depois das 17h no 1º turno | cerca de 3,55 milhões | Logs de 3.857 urnas |
| Urnas com comparecimento acima de 100% | 0 | Boletins de 19.369 urnas |
| Maior virada em uma seção | 13,8 pontos | Boletins de 19.369 urnas |
| Virada mediana para Lula | 2,9 pontos (seção); 2,4 (município) | Boletins e totais municipais |
| Municípios onde o vencedor mudou | 211 de 5.571 | Totais municipais |
| Votos de terceiros: para Flávio / para Lula | 4,9 mi / 4,4 mi | Inferência ecológica (estimativa) |
| Novos votantes no 2º turno que foram para Lula | cerca de 5,9 milhões | Inferência ecológica (estimativa) |
| Direita nos votos de direita e esquerda, deputados, 1º turno | 64,6% | Totais municipais |
| Flávio nos votos dos dois candidatos, 1º turno | 51,0% | Totais municipais |
Observação: os dados de mercado (dólar, Ibovespa, circuit breaker) referem-se à manhã de 26 de outubro, até as 9h57.
Metodologia
Todos os dados são públicos e foram baixados do portal de resultados do TSE em 26 de outubro de 2026: os arquivos finais da eleição presidencial nos 5.571 municípios e no exterior, nos dois turnos; os registros de horário (logs) de uma amostra aleatória de 3.857 urnas; os boletins de urna de outra amostra aleatória de 19.369 urnas; e os resultados do primeiro turno para governador, senador e deputado federal em todos os municípios. Os testes aplicados são os usados na literatura internacional de forense eleitoral: distribuição de comparecimento, relação entre comparecimento e votação, teste do último dígito, distribuição das viradas entre turnos e inferência ecológica para estimar transferências de eleitores. A classificação dos partidos em blocos é do autor.
Limites: os testes detectam alterações amplas, mas não descartam irregularidades isoladas em seções específicas, que exigem a análise dos boletins de uma denúncia concreta. As transferências de eleitores são estimativas estatísticas, não registros individuais; o voto é secreto. Os boletins não registram sexo, idade ou renda, então o estudo não permite conclusões demográficas. A coleta dos arquivos e os testes estatísticos foram programados com apoio de ferramentas de inteligência artificial; os resultados foram conferidos contra os totais oficiais.
Relatório: Confira a versão completa da análise de Felipe Germini em Eleição brasileira: uma análise forense – Energy Pipeline Edição Especial .
O autor: Felipe Germini. Engenheiro civil e fundador e diretor-executivo da Germini Energy. Executivo do setor de energia com mais de 25 anos de experiência. . É conselheiro certificado pelo IBGC e publica o Energy Pipeline, newsletter sobre energia, mercados e geopolítica.
Observação: Esta análise foi feita de forma independente, sem financiamento de partidos, campanhas ou empresas.