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Bruno Galoti Orlandi

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Articulista

Entre o debate e a decisão

Um projeto de infraestrutura pode reunir viabilidade técnica, investidores interessados e importância econômica reconhecida. Ainda assim, transformar planejamento em execução exige algo que nem sempre aparece nas planilhas: a capacidade de coordenar decisões entre instituições que possuem atribuições distintas. No setor portuário, essa articulação é fundamental para dar previsibilidade aos investimentos e garantir que os projetos avancem. 

A expansão dos portos, afinal, não se resume à construção de terminais ou à aquisição de equipamentos. Envolve acessos, condições de navegação, regulação, inovação e relações com as cidades. Cada frente tem seus próprios responsáveis e exigências. O desafio não está em eliminar essas particularidades, mas em evitar que sejam tratadas como assuntos desconectados. Uma decisão tecnicamente adequada em determinada área precisa considerar os efeitos que produz sobre as demais.

É por isso que vejo o planejamento de longo prazo como um exercício de construção coletiva, e não apenas de projeção de números. O Plano Setorial Portuário (PSPort) 2050 oferece uma oportunidade para aproximar visões sobre capacidade, integração entre modais e necessidades futuras da infraestrutura. As contribuições recebidas podem ajudar a definir prioridades, considerando a realidade operacional do setor e as condições necessárias para colocar os projetos em prática. Um plano ganha força quando orienta escolhas, e não quando se limita a registrar intenções. 

Essa mesma preocupação esteve presente nos debates do Fórum Nacional Brasil Export, que acompanhei em Brasília, no início de outubro. As discussões sobre modernização regulatória, competitividade e gestão portuária reforçaram uma convicção: conhecimento técnico e investimentos precisam caminhar junto com o diálogo entre as instituições. Fóruns como esse cumprem um papel importante ao aproximar quem formula políticas, quem opera, quem investe e quem conhece os impactos das decisões. Seu valor, porém, também está no que se constrói depois, fora dos auditórios. 

Santos oferece um exemplo recente e concreto. A aprovação preliminar, pela Autoridade Portuária de Santos (APS), da proposta de transferência do terminal marítimo de passageiros para o Valongo, acompanhada de um plano de investimentos de quase R$ 600 milhões, representa um avanço importante. Ainda existem etapas técnicas, regulatórias e contratuais até a concretização da mudança, e reconhecê-las é parte da responsabilidade com que projetos dessa dimensão precisam ser conduzidos.

O significado dessa iniciativa vai além da nova localização de um terminal. Aproximar a chegada dos turistas do Centro Histórico fortalece a relação entre a atividade de cruzeiros, o comércio, os serviços e a revitalização urbana. Ao mesmo tempo, a proposta deve atender às exigências da operação portuária. Essa interlocução permite que as necessidades sejam consideradas em conjunto, sem que uma instituição assuma o papel de outra. É assim que um investimento setorial pode ampliar seus benefícios para a cidade.

A relação Porto–Cidade revela, aliás, uma lição aplicável ao planejamento nacional: projetos que avançam isoladamente correm o risco de deixar questões essenciais para depois. A capacidade operacional precisa conversar com os acessos e a mobilidade. Novas tecnologias devem dialogar com a formação profissional. O crescimento da atividade econômica precisa encontrar meios de se traduzir em oportunidades para a população. Integrar essas dimensões desde o início significa tomar decisões mais completas e reduzir dificuldades futuras.

Isso não pressupõe unanimidade. Diferenças de competência, avaliação e prioridade fazem parte da administração pública e da atuação empresarial. O que importa é dispor de canais de interlocução que permitam examinar alternativas com rigor, estabelecer responsabilidades e acompanhar encaminhamentos. A qualidade da articulação não se mede pelo número de reuniões ou pela quantidade de propostas apresentadas, mas pela capacidade de convertê-las em resultados verificáveis.

O Brasil tem projetos capazes de ampliar sua competitividade logística. Transformar esse potencial em realidade exige investimentos, capacidade técnica e articulação entre instituições dispostas a construir soluções conjuntas, respeitando as diferentes competências e perspectivas. Afinal, o desenvolvimento de um país também depende da capacidade de trabalhar em torno de objetivos comuns. Entre o debate e a decisão, o que faz diferença é a qualidade do trabalho conjunto e, sobretudo, o resultado que ele entrega à sociedade.

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