Internacional
Panamá cancela acordo da Nova Rota da Seda em meio a pressão dos EUA
Programa visa ampliar as conexões comerciais entre a Ásia, Europa, África e América Latina
O presidente do Panamá, José Raúl Mulino, anunciou na quinta-feira (6) o cancelamento da adesão do país à Iniciativa do Cinturão e Rota, conhecida como Nova Rota da Seda, um megaprojeto chinês que financia obras de infraestrutura em diversos países. A decisão ocorre após pressões dos Estados Unidos para reduzir a influência da China no Canal do Panamá, um dos principais corredores comerciais do mundo.
Mulino garantiu que a embaixada panamenha em Pequim “apresentou o documento correspondente” para “anunciar o cancelamento com 90 dias de antecedência”, conforme estipulado no acordo. “Portanto, essa é uma decisão que tomei”, afirmou o presidente durante coletiva de imprensa.
A medida foi tomada quatro dias após a visita ao Panamá do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que viajou ao país para reforçar a influência de Washington na região. O presidente Donald Trump ameaçou retomar o controle do Canal do Panamá, sob a justificativa de que a infraestrutura estaria sob crescente influência chinesa.
Em declaração, Mulino demonstrou descontentamento com o acordo firmado em 2017 pelo então presidente Juan Carlos Varela (2014-2019). “Eu não sei quem incentivou na ocasião quem assinou isto com a China”, disse. “O que isso trouxe para o Panamá em todos estes anos? Quais são as grandes coisas? O que essa Iniciativa do Cinturão e Rota trouxe para o país?”, questionou, visivelmente incomodado.
Os Estados Unidos vêm criticando a Nova Rota da Seda, argumentando que o projeto é uma estratégia da China para ampliar sua influência global e representar uma ameaça à segurança internacional. Na segunda-feira (3), Rubio celebrou a decisão panamenha como um “grande passo” para estreitar os laços entre Washington e a Cidade do Panamá.
A China, por sua vez, rebateu as críticas. “A cooperação entre a China e o Panamá no marco da Iniciativa Cinturão e Rota está se desenvolvendo com normalidade e vem obtendo resultados frutíferos”, afirmou o porta-voz da chancelaria chinesa, Lin Jian, na quarta-feira (5).
Conflito com os EUA
O cancelamento da adesão à Nova Rota da Seda acontece em um momento de tensão entre Panamá e Estados Unidos. O Departamento de Estado americano alegou recentemente que as embarcações do governo dos EUA poderiam atravessar o Canal do Panamá sem pagar taxas, o que foi desmentido pelas autoridades panamenhas.
Mulino classificou a afirmação dos EUA como “intolerável” e uma “falsidade absoluta”, e determinou que o embaixador panamenho em Washington adotasse “atitudes firmes” em resposta. “Tenho que rejeitar essa declaração do Departamento de Estado porque ela se baseia em uma falsidade. (…) Isso é intolerável, simplesmente intolerável”, disse o presidente.
A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) também desmentiu a afirmação americana, esclarecendo que nenhuma alteração foi feita nas taxas cobradas para embarcações governamentais dos EUA. “Com total responsabilidade, a Autoridade do Canal do Panamá, como indicou, está disposta a estabelecer diálogo com autoridades relevantes dos EUA em relação ao trânsito de navios de guerra provenientes do país”, informou a ACP.
O Panamá se tornou um ponto central na política externa americana, após o presidente Trump acusar o país de cobrar taxas excessivas pelo uso do canal e ameaçar retomar seu controle. “Se os princípios, tanto morais quanto legais, desse gesto magnânimo de doação não forem seguidos, exigiremos que o Canal do Panamá nos seja devolvido, na íntegra e sem questionamentos”, disse Trump no mês passado.
O que é a Nova Rota da Seda?
A Nova Rota da Seda, oficialmente chamada de Iniciativa do Cinturão e Rota, é um megaprojeto de infraestrutura e cooperação econômica lançado pela China em 2013, durante o governo de Xi Jinping. O programa visa ampliar as conexões comerciais entre a Ásia, Europa, África e América Latina, inspirando-se na histórica Rota da Seda, que ligava o Oriente ao Ocidente até o século XVI.
A iniciativa conta com um orçamento trilionário e financia projetos de infraestrutura como estradas, ferrovias, portos, aeroportos, redes de energia e telecomunicações. Atualmente, a China tem investimentos em 150 países, sendo 21 na América Latina. O Brasil, porém, ainda não aderiu formalmente ao programa, apesar da insistência de diplomatas chineses.
Para os críticos, a Nova Rota da Seda é uma estratégia de Pequim para aumentar sua influência global, levando muitos países ao endividamento e ampliando a presença chinesa em setores estratégicos. Para seus defensores, o projeto representa uma oportunidade de desenvolvimento para países emergentes, facilitando o comércio e impulsionando investimentos em infraestrutura.