Sustentabilidade
“O principal desafio climático para o setor rodoviário é a maior frequência de chuvas fortes”
“Temos trabalhado em financiamentos mais eficientes e, sobretudo, em um melhor acesso a esse crédito para financiar ações de redução de riscos e resiliência climática”
O setor brasileiro de transportes terrestres se prepara para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. E os primeiros passos já são dados, com concessionárias e outros agentes privados estudando como financiar os projetos necessários para tornar essa infraestrutura mais resiliente e, assim, garantir sua operação diante de eventos extremos, principalmente chuvas torrenciais. A análise é do diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) Felipe Queiroz, uma das principais vozes no debate sobre mudanças climáticas e seus impactos na infraestrutura de transportes brasileira. Em entrevista exclusiva ao BE News, ele avalia como esse mercado está reagindo ao desafio das mudanças climáticas , qual o maior risco enfrentado e que soluções podem ser adotadas para financiar os investimentos necessários. Confira a seguir:
Diretor, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) vem debatendo os riscos climáticos na infraestrutura do setor e, em especial, a importância de planos de resiliência, de modo que essa infraestrutura tenha como se manter operacional diante de eventos climáticos. O Brasil já conta com uma infraestrutura rodoviária e ferroviária preparada para enfrentar eventos extremos do clima?
É difícil ter um diagnóstico assertivo sobre isso. Na minha opinião, estamos em preparação. Estamos com soluções que endereçam esse desafio. Por exemplo, em minha participação no Santos Export, falei que o programa de sustentabilidade da agência para a infraestrutura rodoviária e ferroviária determina que 1% das receitas de cada projeto deve ser utilizado para fazer frente aos desafios de adequação da nossa infraestrutura, para torná-la resiliente. E por que é difícil afirmar qual é o diagnóstico atual? Porque a primeira etapa desse investimento é fazer, de fato, o diagnóstico e elencar os investimentos prioritários para que a gente alcance esse patamar de resiliência. Entendo que a gente não tem um dado concreto, mas a boa notícia é que a gente tem soluções que endereçam esse desafio.
O setor pode não estar preparado plenamente para os desafios climáticos. Mas, ao menos, a iniciativa privada, os concessionários já reconhecem esse risco e trabalham para se proteger desses eventos?Já há uma consciência desses riscos?
A gente tem um setor pujante, um setor de transportes terrestres que está no estado da arte no Brasil, com empresas muito qualificadas. E elas estão, sim, cientes desses riscos. E estão se preparando, já trabalhando em como financiar e fechar a equação econômico-financeira para viabilizar essas soluções. Já se estuda a utilização de debêntures incentivadas e títulos verdes, que vão trazer fôlego para que os investimentos e os estudos avancem. O setor de transportes terrestres está muito preparado, é muito consciente e muito capaz de fazer essa transformação tão urgente de que a gente precisa.
Hoje, no segmento rodoviário, qual o principal risco climático?
A gente tem questões ligadas a índices pluviométricos acima da média, ou seja, a ocorrência de fortes chuvas, que acabam levando a movimentos de massa, deslizamentos de taludes e, às vezes, a inundações das plataformas das rodovias. Então hoje, no cenário brasileiro, o principal desafio climático para o setor rodoviário é a maior frequência de chuvas fortes, como a gente viu no Rio Grande do Sul, em 2024, e aqui em São Paulo, em 2023. Este é o ponto de atenção principal.
E quanto ao segmento ferroviário?
Os desafios são similares, com a maior ocorrência de chuvas fortes sendo a principal preocupação. Mas acaba que, por conta da escala, pela menor participação desse modal na matriz de transportes, essa não se torna uma questão relativamente tão importante como é no rodoviário. Mas temos de acompanhar isso. Do ponto de vista da logística, quando a gente olha para Santos, por exemplo, para as linhas ferroviárias na descida da Serra do Mar e o impacto que as fortes chuvas podem ter nessa infraestrutura, podendo causar deslizamentos de terra e interromper uma dessas linhas, é, sim, um ponto de atenção.
Sobre a questão do financiamento para os projetos de adaptação às mudanças climáticas, o sr. citou a emissão de debêntures. Mas há linhas de crédito oferecidas por órgãos internacionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Brasil tem buscado essa ajuda?
Não só do BID, como do Banco Mundial e, sobretudo, do BNDES, no Brasil. O BNDES tem os títulos verdes, o Fundo Clima (programa de financiamento para ações voltadas à mitigação dos impactos das mudanças climáticas), por exemplo. Estamos avançando nesses instrumentos de financiabilidade, com spreads vantajosos para quem está atento a essa agenda. Temos trabalhado em financiamentos mais eficientes e, sobretudo, em um melhor acesso a esse crédito para financiar ações de redução de riscos e resiliência climática. Quero que o empresário tenha condições de sentar à mesa e tenha acesso a essas linhas.