Nordeste Export
Nordeste se posiciona como hub na descarbonização da navegação
Etanol e biodiesel surgem como alternativas mais viáveis para substituir o combustível derivado de petróleo nos navios
“O lugar mais fácil de descarbonizar a rota de navegação é a cabotagem brasileira”. A frase é do diretor de Desenvolvimento de Negócios do Grupo Dislub Equador, Leonardo Cerquinho, e foi dita durante a segunda parte do painel InfraESG do fórum Nordeste Export, realizado na Associação Comercial de Maceió e promovido pelo Grupo Brasil Export.
O argumento de Cerquinho parte de uma lógica de disponibilidade: o Brasil é grande produtor de biocombustíveis, já tem infraestrutura instalada e escala de oferta, condições que rotas oceânicas de longo curso dificilmente reúnem. Por isso, ele descarta hidrogênio verde e amônia como soluções para o setor marítimo. “O hidrogênio é uma molécula extremamente difícil de conter. Se você tem um sinistro no meio do mar, como resolve? A amônia é ainda pior — ela é tóxica”, disse.
O pano de fundo da discussão é a normativa aprovada pela Organização Marítima Internacional (OMI) para zerar as emissões de carbono do setor marítimo até 2050, com obrigações graduais previstas para começar em 2028, um ano depois do prazo original, após pressão do governo Trump. Os navios de carga respondem por até 3% das emissões globais de carbono.
Há ainda uma dinâmica logística que, segundo Cerquinho, coloca o Nordeste em posição central nesse processo.
O principal gargalo da cabotagem brasileira é o Porto de Manaus, limitado pelo calado do Arco do Lamoso e pela entrada do Rio Negro no período seco. Para maximizar a carga transportada, os armadores têm interesse em chegar a Manaus e sair de lá com o mínimo possível de combustível nos tanques. Os portos de Suape e Pecém, situados logo após Manaus nas rotas de cabotagem, passam a ser pontos naturais de abastecimento — e ganham ainda mais peso se o combustível adotado for etanol ou biodiesel, cujo poder calorífico menor exige paradas mais frequentes do que o bunker derivado de petróleo.
“O Nordeste vai ter um papel muito relevante na questão do abastecimento de navios”, afirmou. O próprio Grupo Dislub Equador prevê iniciar operações de um terminal de líquidos em Suape em março.
Para Luiz Carlos Ciocchi, ex-diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e consultor do Ipegen, o debate sobre descarbonização no Brasil precisa estar subordinado a uma agenda maior.
“O nosso problema é de desenvolvimento econômico. Nós não temos que nos preocupar agora com emissão de CO2 porque nós já estamos bem — somos o paradigma de muitos países”, disse.
Ciocchi defendeu que o país aproveite sua estrutura consolidada de biocombustíveis e, ao mesmo tempo, desenvolva planejamento estratégico integrado entre setores. “O armador não vai pensar no país como um todo. Alguém tem que capitanear essa visão de futuro”, afirmou.
Eletrificação
O cenário para a eletrificação dos portos é mais sombrio. Jacqueline Wendpap, diretora-executiva da Praticagem do Brasil, alertou que, se os portos brasileiros não conseguirem abastecer adequadamente navios com combustíveis alternativos, o país corre o risco de atrair apenas embarcações mais antigas e poluentes. “A frota que virá pro Brasil será uma frota de segunda linha”, disse.
Na sua avaliação, a eletrificação portuária depende de uma coordenação que ainda não existe. Questionada se enxerga articulação entre ministérios para viabilizar esse processo, foi direta: “Não”.
O gerente de Meio Ambiente do Porto de Maceió, Aldo Flores, deu dimensão concreta ao problema. Uma consulta extraoficial a uma empresa especializada na eletrificação de portos resultou em um orçamento de 15 milhões de dólares apenas para estruturar o atendimento à temporada de cruzeiros de Maceió. “Fica uma cifra inviável pra gente investir nisso”, reconheceu.
Flores lembrou, no entanto, que a matriz energética brasileira já é predominantemente renovável — o que coloca o país em situação mais favorável do que a de nações europeias que cobram avanços em sustentabilidade sem ter resolvido a própria geração de energia.
ANTT
Cynthia Ruas, superintendente de Sustentabilidade, Pessoas e Inovação da ANTT, apresentou o Programa de Sustentabilidade para Infraestrutura da agência, que reúne 470 requisitos em nove parâmetros de desempenho ambiental e social. Das 34 concessões de rodovias e ferrovias monitoradas, 21 aderiram ao programa, parte delas no nível máximo.
Um dos parâmetros trata exclusivamente de resiliência climática, com exigência de planos de obras preventivas a desastres — medidas que, segundo Ruas, ainda são novidade no Brasil. “Se não fosse a tragédia climática do Rio Grande do Sul, esse conceito continuaria pouco conhecido”, avaliou.