Aeroportos
Projeto de 2º aeroporto em Porto Alegre enfrenta resistência da Fraport
Concessionária do Salgado Filho afirma que projeto não tem viabilidade técnica nem econômica, enquanto grupo local articula alternativa privada
A concessionária alemã Fraport, responsável pela operação do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, procurou o Ministério de Portos e Aeroportos para se posicionar contra a proposta de construção de um segundo terminal aéreo na capital gaúcha. A iniciativa vem sendo defendida por um grupo de empresários e lideranças políticas do Rio Grande do Sul.
No mês passado, a empresa enviou uma carta ao ministério e à Secretaria Nacional de Aviação Civil (SAC) solicitando que o governo federal descarte o projeto do chamado “Aeroporto Internacional 20 de Setembro”. A Folha de São Paulo acessou o documento, onde a concessionária argumenta que não há justificativa técnica ou econômica para a nova estrutura e sustenta que o Salgado Filho possui capacidade suficiente para atender à demanda de passageiros e cargas pelas próximas décadas.
A manifestação ocorre em meio à articulação dos defensores do projeto, que prometem intensificar a mobilização em Brasília. Apesar disso, o Ministério de Portos e Aeroportos informou que, até o momento, não há processo formal em análise para a construção de um segundo aeroporto em Porto Alegre.
O movimento em favor da nova unidade é liderado pelo presidente do PSB no Rio Grande do Sul, Beto Albuquerque. Ex-deputado federal e pré-candidato, ele afirma estar finalizando um dossiê técnico para apresentar ao governo federal. A proposta prevê um aeroporto com investimento integralmente privado, a ser construído entre os municípios de Nova Santa Rita e Portão, a cerca de 27 quilômetros da capital.
Embora a ideia já circule há anos, ganhou força após a enchente histórica que atingiu o estado em 2024 e paralisou as operações do Salgado Filho. Para Albuquerque, o projeto representa uma oportunidade de avanço logístico, não para competir, mas para criar uma nova alternativa.
A proposta é coordenada pelo Comitê Pró-Aeroporto Internacional 20 de Setembro, liderado pelo ex-piloto da Varig Nelson Riet, e conta com o apoio de empresários da região do Vale dos Sinos, além de prefeitos e lideranças locais.
Diante da intensificação desse movimento, a Fraport decidiu adotar uma postura mais ativa junto ao governo. A empresa ressalta que o aeroporto passou por ampla modernização desde o início da concessão, em 2018. Entre os investimentos, destaca a ampliação da pista de pouso de 2.280 para 3.200 metros, o aumento da capacidade anual de passageiros de 7,8 milhões para 16,2 milhões e a construção de um novo terminal internacional de cargas.
Segundo a concessionária, o aeroporto tem condições de atender à demanda projetada até o fim do contrato, previsto para 2043, sem restrições, inclusive para operações com aeronaves cargueiras de grande porte. A empresa também afirma que há espaço para expansão da área logística.
Um dos principais argumentos dos defensores do novo aeroporto é que o Salgado Filho teria limitações para receber grandes cargueiros e que, em situações adversas, voos precisam ser desviados para outros estados, como Santa Catarina. A Fraport contesta essa avaliação e afirma que o terminal já opera com aeronaves de grande porte e ficou inoperante apenas durante a tragédia climática de 2024.
No documento enviado ao governo, assinado pela presidente da companhia, Andreea-Diana Pal, a empresa afirma que a construção de um novo aeroporto como alternativa “não resiste a uma análise mínima de viabilidade técnica e econômica” e classifica a proposta como um possível desperdício de recursos públicos.
Já Nelson Riet, do comitê pró-aeroporto, rebate a posição da concessionária. Para ele, o Salgado Filho pode atingir a saturação nos próximos anos e a ausência de uma alternativa representaria um risco.
A concessionária, por sua vez, destaca que o aeroporto tem alcançado altos níveis de qualidade de serviço e conta com um terminal de cargas com capacidade para processar até 100 mil toneladas. A empresa também informou que o movimento de passageiros já se recuperou após a enchente, com 7,5 milhões de viajantes em 2025, número próximo ao registrado em 2023, de 7,4 milhões.
A Secretaria de Logística e Transportes do Rio Grande do Sul afirmou que reconhece a importância estratégica do Salgado Filho e a necessidade de investimentos contínuos em sua ampliação. No entanto, destacou que os estudos sobre o novo aeroporto ainda demandam análises complementares antes de qualquer decisão.
Segundo o governo estadual, o debate deve considerar de forma integrada todo o sistema aeroportuário e a logística regional. Nesse sentido, o Plano Estadual de Logística e Transportes (PELT) será utilizado como base técnica para orientar o planejamento de longo prazo.