Comércio exterior
Seca na Amazônia pode travar corredor bilionário do agro brasileiro
Impactos de super El Niño pode elevar custos logísticos em até R$ 850 milhões
A possibilidade de ocorrência de um novo Super El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027 voltou a colocar a infraestrutura logística brasileira em alerta. Com projeções de redução dos níveis dos rios amazônicos, especialistas defendem que a dragagem do Rio Tapajós se tornou uma medida estratégica para garantir o escoamento da próxima safra recorde de grãos e evitar impactos que podem ultrapassar R$ 850 milhões para produtores e para toda a cadeia logística.
O Tapajós consolidou-se nos últimos anos como um dos principais corredores do Arco Norte para o transporte de cargas agrícolas. Em 2025, a hidrovia movimentou 16,8 milhões de toneladas, crescimento de 14,3% em relação ao ano anterior. Soja e milho responderam por 88,4% desse volume, o equivalente a cerca de 14,9 milhões de toneladas. Somente no primeiro bimestre de 2026, foram movimentadas 2,38 milhões de toneladas, sendo 86% compostas por grãos.
Para o CEO da MoveInfra, Ronei Glanzmann, a questão deixou de ser apenas ambiental e passou a envolver diretamente a competitividade da logística brasileira. A entidade reúne seis dos principais grupos de infraestrutura do país: CCR, EcoRodovias, Hidrovias do Brasil, Rumo, Santos Brasil e Ultracargo.
Segundo estimativas da MoveInfra, uma eventual paralisação do Tapajós durante três a quatro meses poderia retirar entre 3,1 milhões e 5 milhões de toneladas do corredor hidroviário, gerar custos adicionais entre R$ 510 milhões e R$ 850 milhões e provocar emissões extras superiores a 55 mil toneladas de CO₂ devido ao aumento do uso do transporte rodoviário.
“Estamos falando do principal corredor hidroviário do agronegócio brasileiro. Se a dragagem não ocorrer, precisamos saber qual é o plano de contingência para escoar soja e milho”, afirma.
Segundo Glanzmann, a preocupação aumenta diante das projeções climáticas que apontam alta probabilidade de ocorrência do El Niño e possibilidade de um evento mais intenso.
“Há estimativas indicando 98% de probabilidade do fenômeno até 2026 e cerca de 37% de chance de um Super El Niño. Se isso ocorrer, podemos repetir um cenário semelhante ao de 2023 e 2024, quando os rios amazônicos atingiram níveis críticos”, completa.
Corredor estratégico
Glanzmann destaca que o modal hidroviário é atualmente um dos mais eficientes da matriz brasileira, tanto pelo aspecto econômico quanto ambiental.
“O transporte hidroviário é ainda mais eficiente que o ferroviário e muito superior ao rodoviário em emissões e consumo energético. A criação da Secretaria Nacional de Hidrovias demonstra que o governo compreendeu essa importância”, explica.
Segundo ele, a dragagem prevista representa uma solução construída após sucessivas revisões no projeto.
Inicialmente, a proposta previa a retirada de cerca de três milhões de metros cúbicos de sedimentos. Posteriormente, o volume foi reduzido para aproximadamente um milhão de metros cúbicos, com alterações para preservar áreas sensíveis e reduzir impactos ambientais.
“O projeto foi ajustado justamente para minimizar impactos ambientais e sociais. Além disso, os custos seriam assumidos pelas empresas privadas, cabendo ao DNIT a fiscalização”, afirma.
Efeito dominó
A redução da navegabilidade do Tapajós durante a estiagem poderia provocar impactos em cadeia no sistema logístico brasileiro. Uma das principais consequências seria o redirecionamento da produção para outros corredores de transporte.
“A alternativa acaba sendo Santos. Mas isso significa colocar milhões de toneladas adicionais nas rodovias, aumentar congestionamentos, elevar o consumo de diesel e pressionar toda a infraestrutura do Sudeste”, diz.
O Porto do Itaqui também aparece como alternativa, mas possui limitações relacionadas à operação conjunta com o transporte ferroviário de minério pela Estrada de Ferro Carajás. Já a hidrovia do Madeira enfrenta restrições naturais de calado durante períodos de seca.
O gargalo da armazenagem
Outro ponto destacado pelo executivo é a baixa capacidade de armazenagem de grãos no país.
Segundo Glanzmann, enquanto produtores de países com clima temperado conseguem manter parte da produção armazenada por períodos maiores, o Brasil ainda opera com forte dependência do escoamento imediato.
“A soja precisa ser seca e armazenada. Grande parte dessa infraestrutura está justamente concentrada em Miritituba. Se o fluxo é interrompido, não existe capacidade suficiente para absorver toda essa produção”, afirma.
Para o executivo, o cenário reforça a necessidade de adaptar a infraestrutura brasileira aos efeitos das mudanças climáticas.
“O Brasil precisa discutir infraestrutura resiliente. Não basta ampliar capacidade logística; é preciso prepará-la para eventos climáticos extremos que tendem a ocorrer com maior frequência”, conclui.
Impasse no governo ameaça dragagem do Tapajós e encarece escoamento de grãos
Hidrovia do Tapajós transporta 2,38 milhões de toneladas no 1º bimestre