Internacional
Brasil aprofunda diálogo com a China enquanto reforça defesa da indústria nacional
Movimento simultâneo do governo combina aproximação diplomática com Pequim e uso mais ativo de instrumentos de defesa comercial
O governo brasileiro tem avançado em duas frentes complementares da política comercial externa. De um lado, reforça o diálogo diplomático e estratégico com a China, principal parceiro comercial do Brasil. De outro, intensifica o uso de instrumentos de defesa comercial para proteger a indústria nacional diante do aumento da concorrência externa.
Nesta semana, o presidente em exercício Geraldo Alckmin conversou por telefone com o vice-presidente da República Popular da China, Han Zheng. O contato ocorreu em um momento de fortalecimento das relações bilaterais e de esforço do governo brasileiro para ampliar o comércio e a cooperação com parceiros estratégicos.
Paralelamente, o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior, o GECEX, avançou em medidas de defesa comercial. Entre os instrumentos estão investigações antidumping e mecanismos de proteção contra práticas consideradas desleais no comércio internacional. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o objetivo é garantir condições mais equilibradas de concorrência e fortalecer a indústria brasileira.
O movimento levanta um questionamento central: há contradição entre aprofundar a parceria com a China e, ao mesmo tempo, reforçar barreiras de defesa comercial? Para especialistas, as estratégias operam em planos distintos, mas convergentes.
“O diálogo diplomático e comercial com a China ocorre no plano estratégico e político, enquanto as medidas de defesa comercial operam no plano técnico e jurídico, dentro das regras da Organização Mundial do Comércio. O Brasil deve aprofundar relações com parceiros relevantes, como a China, mas também tem o dever de proteger a indústria nacional contra práticas ilegais, como dumping e subsídios. São instrumentos distintos, porém convergentes, voltados a garantir previsibilidade e concorrência justa.” Analisa Andrea Weiss, advogada especialista em comércio internacional.
A China é atualmente o maior destino das exportações brasileiras, com forte peso de commodities como soja e minério de ferro. Ao mesmo tempo, a presença crescente de produtos industriais chineses no mercado interno tem pressionado segmentos da indústria nacional. Nesse cenário, o desafio do governo é ampliar a parceria comercial sem aprofundar desequilíbrios internos.
Segundo Andrea Weiss “o uso de instrumentos de defesa comercial não é novidade no Brasil, mas o que se observa agora é uma atuação mais ágil, eficaz e coordenada do governo.”
A especialista também interpreta que o avanço das medidas no GECEX expõe um papel mais ativo do Brasil na política comercial. “O governo tem assumido um papel mais ativo na calibragem da política comercial, sempre sem romper com os compromissos internacionais assumidos.”
Historicamente, o país utilizou de forma mais limitada os instrumentos de defesa previstos nas regras internacionais. Agora, a sinalização é de uma atuação mais ágil, eficaz e coordenada, em resposta a um cenário global marcado por excesso de capacidade produtiva, tensões geopolíticas e maior uso desses mecanismos por outros países.
Na avaliação da advogada especialista em comércio internacional, apesar do reforço dos instrumentos de defesa comercial, essas medidas, isoladamente, não resolvem todos os desafios enfrentados pela indústria brasileira.
Setores como siderurgia, metalurgia, químicos, plásticos e pneumáticos com forte exposição ao comércio internacional e à concorrência chinesa estão entre os mais sensíveis a esse duplo movimento do governo. Segundo ela, o diálogo com a China pode abrir espaço para investimentos, parcerias e maior integração em cadeias globais de valor, mas exige uma calibragem cuidadosa para evitar retaliações e impactos diplomáticos.