Internacional
Cédric Virciglio: “A mentalidade do mercado mudou muito”
O diretor de planejamento estratégico e projeções da Haropa Port diz que agora há uma preocupação maior com o meio ambiente
O Porto de Le Havre, administrado pela Haropa Port, aposta em hidrovias e novas tecnologias para reduzir o impacto ambiental de suas operações. Para o diretor de Planejamento Estratégico e Projeções da companhia, Cédric Virciglio, este é um caminho natural, considerando a importância de o setor de transportes se tornar mais sustentável.
Em entrevista exclusiva ao BE News, o dirigente do complexo marítimo francês fala sobre os esforços de Le Havre para adotar ações menos danosas ao meio ambiente e como isso vem moldando o planejamento estratégico do porto.

Cédric Virciglio, diretor de Planejamento Estratégico e Projeções da Haropa Port. (Foto: Reprodução/BE News)
Diretor, a Haropa Port vem adotando ações para reduzir a emissão de poluentes no Porto de Le Havre, que administra. Há um maior incentivo para o transporte hidroviário, por exemplo. Como essa estratégia foi desenvolvida?
Hoje, 85% do transporte das cargas movimentadas nos portos administrados pela Haropa Port (Le Havre, Rouen e Paris) são feitos por rodovia. É um índice muito alto. E nossas operações estão crescendo, os navios que recebemos estão cada vez maiores. Em cada escala (de um navio conteineiro) em Le Havre, entre 3 mil e 6 mil TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés) são descarregados. E para retirar essas cargas, teríamos de ter a mesma quantidade de caminhões. É simplesmente impossível. Por quê? Porque nosso principal mercado é a região de Paris, que já está completamente congestionada. E nós temos um ativo forte, estratégico, que é o Rio Sena. Então temos e vamos usá-lo mais e mais. Por isso, estamos investindo em uma nova infraestrutura para melhorar o fluxo das cargas utilizando especialmente barcaças para seu transporte, ao invés de caminhões.
As obras previstas para o Porto de Le Havre e voltadas à hidrovia, como o acesso direto da área de expansão do complexo marítimo, o Port 2000, para o Sena, serão concluídas nos próximos anos. Mas os mercados portuário e de navegação na Europa e, em especial, na França, já se preocupam em adotar soluções menos poluentes em suas atividades. A Haropa Port já percebe esse esforço?
Sim. Vejo que a mentalidade do mercado mudou muito. No passado, o caminhão era uma solução fácil para o transporte de cargas saindo ou chegando em um porto, ele é flexível, rápido e assim por diante. Mas agora, há uma preocupação maior com o meio ambiente, com as emissões de CO2 (nas atividades portuárias). E com os serviços portuários cada vez mais integrados nas cidades, nós temos de agir. E o setor privado também entende isso. Por isso, alguns grandes players, como a (armadora francesa) CMA CGM e a TiL (do grupo suíço MSC) estão investindo mais em hidrovias e colocando cada vez mais volumes em barcaças para alcançar Paris e outras regiões.
Ainda sobre a política de sustentabilidade de Le Havre, quando o Grupo Brasil Export iniciou suas missões internacionais em 2005, há exatos 20 anos, os primeiros portos visitados foram Roterdã, nos Países Baixos, e Le Havre. E naquela época, para expandir sua área operacional, a administração portuária desenvolveu o projeto Port 2000, aterrando uma parte do canal do Rio Sena. Hoje, para aumentar a capacidade operacional, Le Havre busca qual estratégia? Aumentar a área para terminais, aterrando o rio ou o mar, ainda é a resposta?
Sempre temos duas opções. A primeira pode parecer mais fácil, que é encontrar uma área greenfield e construir ali novos terminais. Mas na verdade, é muito difícil, porque na Europa, a densidade (populacional) é muito alta e não é fácil encontrar espaço novo para construir esse tipo de infraestrutura.
Então qual é a segunda opção?
A segunda alternativa é otimizar o trabalho dos terminais. Por isso, no nosso plano estratégico atual, estamos trabalhando com os operadores de terminais para aumentar a capacidade deles sem precisar ampliar sua área. A solução passa por investir em novos portêineres, novos planejamentos logísticos. E também buscamos aproveitar espaços do porto que hoje não estão destinados à operação e integrá-los aos terminais. Hoje, no porto, estamos discutindo isso com os operadores e eles realmente precisam desses espaços para desenvolver novos serviços. Com essas estratégias, nos próximos quatro ou cinco anos, conseguiremos ampliar a capacidade de movimentação de cargas de Le Havre entre três e cinco milhões de TEU por ano.
A solução, então, é ampliar a eficiência e melhor explorar as áreas já construídas no porto?
Sim, exatamente. Por quê? Porque desenvolver novos terminais em greenfields demora pelo menos dez anos. Otimizar um terminal leva, é claro, menos tempo. Obviamente você tem que fazer a expansão simultaneamente com a operação dia-a-dia, mas é uma forma mais rápida e consome menos recursos do que construir um terminal.
Uma estratégia mais sustentável, não?
Mais sustentável, sim. E é o mesmo princípio de nosso plano de expansão do uso das hidrovias. Em uma única barcaça de Le Havre a Paris, nós podemos colocar 250 contêineres. Isso significa que, com uma única embarcação, você tira 250 contêineres e 250 caminhões da rua.