Infraestrutura
Juros altos preocupam construção, que prevê queda na atividade e no emprego
Dados da CNI aponta pessimismo entre empresários da construção, com projeções de queda na atividade, emprego e investimentos nos próximos meses
As expectativas da indústria da construção para os próximos seis meses entraram no campo negativo em julho, algo que não acontecia desde abril de 2020, no início da pandemia de Covid-19. A piora ocorre após um segundo trimestre marcado pela insatisfação com as condições financeiras, dificuldade de acesso ao crédito, além da pressão dos juros e dos custos de produção.
Os dados fazem parte da Sondagem Indústria da Construção, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Todos os indicadores de expectativa ficaram abaixo dos 50 pontos, nível que separa projeções de crescimento e retração. O índice referente ao nível de atividade recuou 3,7 pontos, para 49,2 pontos, enquanto a projeção para o número de empregados caiu 3,6 pontos, chegando a 49,1 pontos.
O indicador de novos empreendimentos e serviços também diminuiu 3,6 pontos, para 48,9 pontos. Já a expectativa de compra de insumos e matérias-primas teve a maior queda, de 4,5 pontos, encerrando julho em 48,3 pontos.
Os resultados indicam que os empresários esperam redução da atividade, dos postos de trabalho, do lançamento de projetos e da aquisição de materiais nos próximos meses. O cenário também reduziu a confiança dos empresários e afetou a intenção de investimentos.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da construção recuou 2,1 pontos em julho, para 45,6 pontos. A intenção de investimento também caiu, passando de 43,7 para 42,4 pontos.
Finanças seguem pressionadas
Apesar de pequenas variações positivas, os indicadores financeiros permaneceram abaixo dos 50 pontos no segundo trimestre, revelando insatisfação entre os empresários.
O índice de satisfação com a situação financeira avançou 0,2 ponto em relação aos três primeiros meses do ano, alcançando 45,2 pontos. A satisfação com o lucro operacional subiu 0,4 ponto, para 41,7 pontos, enquanto o indicador de facilidade de acesso ao crédito passou de 37,7 para 39,3 pontos.
Mesmo com a melhora, o resultado relacionado ao crédito continua distante da linha divisória, refletindo a dificuldade das empresas para obter empréstimos e financiamentos.
Os juros elevados permaneceram no topo das preocupações do setor. O problema foi citado por 36,2% dos empresários no segundo trimestre, acima dos 34,9% registrados no período anterior.
A carga tributária apareceu na segunda posição, apontada por 33,6% dos entrevistados. Em seguida estão a falta ou o alto custo da mão de obra não qualificada, com 28,9%, e de trabalhadores qualificados, com 28,6%. A demanda interna insuficiente foi mencionada por 17,3%.
“O setor tem sido bastante pressionado não apenas pelas taxas de juros, que encarecem as dívidas das empresas, mas também pela elevação consistente dos custos, tanto da mão de obra qualificada e não qualificada como dos insumos e matérias-primas, problema que se agravou com a guerra no Oriente Médio”, afirmou o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo.
O índice que acompanha a evolução dos preços de insumos e matérias-primas caiu 2,2 pontos, para 66,2 pontos. Embora o recuo indique menor intensidade na alta dos custos, o resultado acima dos 50 pontos mostra que o encarecimento continuou disseminado entre as empresas.
Atividade e emprego recuam
O desempenho da construção também perdeu força em junho. O indicador de evolução do nível de atividade caiu de 49,1 para 47,2 pontos, enquanto o índice relativo ao número de empregados passou de 48,5 para 47,9 pontos.
Os dois resultados abaixo da linha de 50 pontos mostram redução da atividade e do emprego em comparação com o mês anterior.
A Utilização da Capacidade Instalada (UCI), no entanto, permaneceu em 67%, mesmo percentual registrado em junho de 2025. Desde o início de 2026, o indicador acumula avanço de três pontos percentuais.
A pesquisa ouviu 321 empresas entre os dias 1º e 10 de julho. A amostra reuniu 121 companhias de pequeno porte, 132 médias e 68 grandes.