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É preciso saber se comunicar com os mais velhos

Nos últimos dez anos, o número de pessoas 60+ no mercado de trabalho saltou 53%. De acordo com pesquisa de dados Nexus, de 2016 a 2025, o contingente de trabalhadores 60+ avançou de 5,7 milhões para quase 8,8 milhões, mas infelizmente grande parte sem carteira de trabalho. Mesmo assim, é necessário que as empresas tenham a preocupação de facilitar o relacionamento de funcionários jovens com os mais velhos, trazendo contribuições produtivas para os dois lados. Segregar grupos etários, tão comum no mundo atual, só aumenta a distância e o preconceito. A psicóloga Dra. Maria Celia de Abreu, fundadora do Instituto Ideac, voltado ao envelhecimento, e autora de vários livros, entre eles, “Velhice uma nova paisagem”, destaca nessa entrevista a importância da comunicação adequada entre as gerações. É necessário quebrar tabus e incentivar esse convívio, ela afirma.
Qual é a maior dificuldade?
É o preconceito, o idadismo, que está tão impregnado na nossa cultura. Muitas vezes precisamos fazer um esforço deliberado para descobri-lo, inclusive em nós mesmos. Quer ver um exemplo frequente? Você encontra uma pessoa idosa, fisicamente frágil, talvez cognitivamente também, e expressa muito amor – autêntico, verdadeiro! – com palavras afetivas, diminutivos e com superproteção de comportamentos… que não funcionam, porque no fundo isso é infantilizar a pessoa idosa. Alguém chama de “fofinho” uma pessoa que tem uma história de vida respeitável, de lutas, ideais, coragem?
O que falta?
Escuto queixas recorrentes de velhos: sentem-se incompreendidos, desconsiderados… Eles dirigem as queixas e acusações aos seus próximos. Mas, pelo que observo, as pessoas que interagem com velhos não são malvadas, pelo contrário, são carregadas de boas intenções… o que lhes falta, provavelmente, são sugestões para que possam transformar boas intenções em ações que minimizem essas dores dos velhos.
Pode dar umas dicas?
Estabelecer canais de Comunicação Interpessoal é essencial sempre; muito especialmente, em situações em que os interlocutores são pessoas em fases de vida diferentes. É preciso refletir e analisar como é a comunicação numa empresa onde o superior é mais jovem do que o subordinado. Mas todas as moedas têm duas faces: um superior mais velho pode eventualmente ser idadista em relação a um subordinado jovem; do mesmo modo, a iniciativa de melhorar a comunicação precisa partir não só da pessoa mais nova, mas também da mais velha. A disposição a colaborar traz bons resultados, as acusações mútuas não levam a nada.
Por que essa comunicação importa?
Importa porque cada vez mais a sociedade é formada por velhos; esse é um fato incontestável. Em consequência, jovens profissionais de praticamente todas as áreas terão cada vez mais clientes velhos, e precisam entender esse público para poder atender às suas demandas. Do mesmo modo, cada vez mais as equipes de trabalho serão compostas por pessoas de gerações diferentes, e precisam se comunicar para produzir em conjunto.
O preconceito continua grande?
Sim, estamos inseridos numa sociedade que tradicionalmente desvaloriza os mais velhos. Só recentemente, a partir dos últimos anos do século XX, é que esse preconceito está sendo conscientizado e combatido. O próprio termo “ageism” – que traduzimos por “idadismo” – só foi cunhado nos Estados Unidos, pelo médico Robert Butler, no final dos anos 60. O tempo decorrido de lá para cá é curto para a sociedade como um todo compreender que tratar um velho por “velhinho”, “fofinho”, “vovozinho” ou termos parecidos revela carinho, certamente, mas também um sentimento de superioridade. Até mesmo a generosidade e o cuidado excessivos são prejudiciais e podem abafar a autonomia, a criatividade, a autoestima, principalmente em uma situação de trabalho.
O que pode facilitar a comunicação interpessoal?
Saber ouvir é essencial. Dialogar é o melhor meio de você expressar empatia por outra pessoa, de demonstrar que consegue ver o mundo pelos olhos dela – mesmo que o seu mundo seja bem diferente. Só que é difícil estar à disposição do outro, sem violentar a sua singularidade: requer reflexão, decisão e treino.
O que os mais jovens devem evitar nesse convívio?
Frases irônicas, por exemplo. Parece que quem emite a frase é muito sagaz, mas… pode ser que a mensagem oculta na ironia seja: “não estou a fim de ouvir você, porque você é um bobo, suas ideias são fora de moda, veja só como eu sou mais inteligente”.
Como as empresas podem facilitar a convivência intergeracional?
É importante valorizar os executivos seniores e provocar a conexão com os mais jovens para que troquem conhecimentos, inclusive sobre novas tecnologias. Os mais velhos podem apoiar em temas como liderança, resiliência e inteligência emocional. Também vale montar equipes de trabalho mistas com diferentes faixas etárias para resolverem problemas.
Há um jeito melhor?
Na verdade, não há uma só possibilidade que atenda às necessidades de todos. Cada empresa, cada equipe, cada pessoa mais jovens e cada pessoa mais velha é que vão encontrar as melhores fórmulas para elas. O que há de universal é que isso exige uma predisposição cheia de boa vontade, um movimento (cansativo…) em busca de informações confirmadas, persistência na busca do caminho que leve aos objetivos; só que todo esse dispêndio de energia produz excelentes resultados.