Indústria
Falta de engenheiros pode virar gargalo para nova onda de investimentos
Queda de cerca de 30% nas matrículas em uma década acende alerta para execução de projetos
A falta de engenheiros pode se transformar em um novo gargalo para a expansão da infraestrutura brasileira nos próximos anos. Enquanto o país busca ampliar investimentos em rodovias, ferrovias, portos, energia, saneamento, habitação e outros projetos de grande porte, o número de matriculados em cursos de engenharia caiu cerca de 30% em uma década, passando de mais de 1,2 milhão em 2015 para aproximadamente 887 mil em 2024.
O dado é apontado pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon) na cartilha Infraestrutura, Produtividade e Capital Humano, divulgada neste ano. O documento também cita estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) segundo a qual o déficit atual de aproximadamente 75 mil engenheiros pode chegar a pelo menos 500 mil profissionais até 2030. A projeção mencionada na publicação chega a até 1 milhão de profissionais em um cenário de maior escassez.
Para o vice-presidente de Operações da CTC Infra, Rodrigo Melo, a questão deixou de ser exclusivamente educacional e passou a representar um risco para a capacidade de execução dos investimentos em infraestrutura.
“Podemos ter capital disponível, novos projetos e demanda por infraestrutura, mas existe um limite para a velocidade de expansão quando não formamos profissionais no mesmo ritmo. Engenharia não é uma capacidade que se cria de um ano para o outro”, afirma.
Segundo Melo, grandes empreendimentos dependem de profissionais com conhecimento técnico, experiência de campo e capacidade de coordenar diferentes especialidades. A falta desses profissionais, portanto, pode afetar diretamente cronogramas, custos e produtividade.
A cartilha do Sinicon aponta justamente esses efeitos entre os riscos associados à escassez de mão de obra qualificada, incluindo aumento de custos, atrasos nos cronogramas, perda de densidade técnica e redução da competitividade.
Formação abaixo da demanda
O problema não está apenas na redução do número absoluto de estudantes. Segundo o documento, o Brasil forma entre três e quatro engenheiros para cada 10 mil habitantes, enquanto Alemanha, Japão e Estados Unidos chegam a aproximadamente 14 profissionais para a mesma proporção populacional.
A avaliação também aponta uma desconexão entre a formação acadêmica e as necessidades do mercado. Parte dos profissionais formados não segue carreira diretamente relacionada à engenharia, enquanto jovens recém-formados enfrentam dificuldades para ingressar no mercado e acumular experiência prática.
Em São Paulo, por exemplo, apenas 17% dos engenheiros registrados emitiram Anotações de Responsabilidade Técnica (ART) relacionadas a obras e serviços de engenharia em 2025, segundo dado citado pelo Sinicon.
Para Melo, o cenário exige que a discussão sobre formação profissional vá além da abertura de novas vagas nas universidades. “Não basta aumentar vagas. Precisamos aproximar formação acadêmica e realidade das obras”, afirmou.
O executivo defende maior aproximação entre universidades, escolas técnicas e empresas, com experiências práticas ainda durante a formação. A necessidade ganha peso diante do avanço da tecnologia nos empreendimentos, que passaram a exigir profissionais capazes de trabalhar com ferramentas digitais e integrar diferentes disciplinas.
A falta de profissionais experientes pode aumentar a disputa por mão de obra especializada entre diferentes obras e regiões.
“Projetos de maior complexidade dependem não apenas de profissionais disponíveis, mas de equipes capazes de coordenar diferentes disciplinas, solucionar problemas durante a execução e transformar projetos de engenharia em obras dentro dos padrões de prazo, qualidade e segurança”, diz Melo.
Entre as recomendações apresentadas pelo Sinicon estão políticas integradas de educação, trabalho e infraestrutura, além de maior previsibilidade dos investimentos. O documento também propõe aproximar empresas, universidades e escolas técnicas por meio de estágios supervisionados vinculados a obras reais, laboratórios compartilhados e programas de formação por competências.
A proposta é reduzir a distância entre o conteúdo aprendido durante a formação e as situações encontradas nos canteiros de obras.
Para Melo, o planejamento da infraestrutura precisa incorporar essa dimensão desde o início dos projetos.
“Uma rodovia, uma planta industrial, um data center ou qualquer empreendimento de alta complexidade começa muito antes do canteiro de obras. Se o Brasil quer construir uma nova geração de infraestrutura, precisa construir também uma nova geração de engenheiros”, conclui.