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Ferrovia entre Brasil e Peru volta ao radar com apoio da China
Projeto de mais de 3 mil quilômetros entre Ilhéus, na Bahia, e o Porto de Chancay avança com apoio do país asiático
A proposta de interligar os oceanos Atlântico e Pacífico por meio de uma ferrovia transcontinental voltou com força à agenda bilateral entre Brasil e China. Em Pequim, durante a visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, reafirmou a Ferrovia Bioceânica como uma das prioridades do governo brasileiro para superar gargalos logísticos e impulsionar a competitividade do país.
A ferrovia, que ligaria o porto de Ilhéus (BA) ao porto de Chancay, no Peru, passaria por regiões-chave do agronegócio nacional, como o Matopiba — área de fronteira agrícola que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O traçado conectaria a Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) à Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste), formando um corredor ferroviário com mais de 3 mil quilômetros de extensão até a fronteira com o Peru.
“Estamos rasgando o Brasil de leste a oeste”, afirmou Tebet em um dos encontros com autoridades e empresários chineses. Segundo a ministra, o impacto desse projeto sobre a economia brasileira poderá ser comparado ao de uma reforma tributária nas regiões Sul e Sudeste, tamanha a transformação esperada para o Norte, o Centro-Oeste e o interior do Nordeste.

O traçado da Ferrovia Bioceânica conectaria a Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) à Fico (Ferrovia de Integração Centro-Oeste), formando um corredor com mais de 3 mil km. Foto: Divulgação/Governo do MS
Tebet destacou que o projeto será viável apenas com a participação de capital internacional, especialmente chinês. “Não há investimento privado nacional suficiente para uma obra dessa magnitude. A China tem os recursos e o interesse. Precisamos garantir segurança jurídica e mostrar que é um projeto de Estado, e não de governo”, afirmou.
De acordo com a ministra, o governo brasileiro já vem trabalhando há 60 dias para estruturar tecnicamente a proposta e avançar nas negociações. O trabalho é conduzido pelo Ministério do Planejamento em articulação com a Casa Civil e os ministérios dos Transportes e dos Portos e Aeroportos. Entre as ações já realizadas estão visitas técnicas a pontos estratégicos do projeto, como Mara Rosa (GO) — local onde se cruzam os trilhos da Fiol, da Fico e da Ferrovia Norte-Sul —, além de uma inspeção no Porto de Santos (SP).
Memorandos
O interesse chinês na iniciativa ficou ainda mais evidente nos memorandos de entendimento firmados em Pequim, que incluíram a Ferrovia Bioceânica entre os projetos prioritários da cooperação bilateral. A articulação segue os quatro eixos delineados durante a visita do presidente Xi Jinping ao Brasil no fim do ano passado: o Novo PAC, a Nova Indústria Brasil, o Plano de Transformação Ecológica e as Rotas de Integração Sul-Americana — sendo estas últimas um dos focos do Ministério do Planejamento.
“A China tem interesse, assim como o Peru e o Brasil. O objetivo é garantir previsibilidade e assegurar que, independentemente das gestões, este é um compromisso de Estado, com viabilidade econômica clara”, reforçou Tebet. Para ela, o projeto tem potencial para transformar o interior do Brasil e impulsionar o desenvolvimento de áreas com grande vocação produtiva, mas ainda carentes de infraestrutura.
A ministra afirmou que, uma vez concluída, a Ferrovia Bioceânica poderá reposicionar o Brasil na geopolítica continental e nos fluxos globais de comércio, aproximando o país dos mercados asiáticos por meio de uma nova rota interoceânica. “É uma mudança radical. Tornará o Brasil muito mais competitivo”, concluiu.
Rotas de Integração miram reaproximação comercial com sul-americanos
Paralelamente à retomada da discussão sobre a Ferrovia Bioceânica, o governo brasileiro aposta em um conjunto mais amplo de iniciativas para estreitar os laços logísticos e comerciais com os vizinhos sul-americanos. Batizadas de Rotas de Integração e Desenvolvimento Sul-Americano, as cinco diretrizes rodoviárias e ferroviárias foram desenhadas pelo Ministério do Planejamento após consulta aos 11 estados brasileiros que fazem fronteira com países da América do Sul.
A proposta surgiu a partir do Consenso de Brasília, encontro que reuniu líderes regionais em maio de 2023 e sinalizou a retomada da agenda de integração sul-americana. O objetivo central é reduzir o tempo e os custos de transporte entre o Brasil, seus vizinhos e a Ásia — principal destino das exportações brasileiras.
Durante o Seminário Empresarial China-Brasil, realizado em Pequim, a ministra Simone Tebet defendeu o modelo de cooperação multilateral e destacou a necessidade de investimentos privados internacionais para viabilizar os projetos de integração. “Algumas peças do quebra-cabeça estão com o Brasil, outras com a China. Mas o propósito é comum: garantir dignidade e cidadania aos cidadãos do planeta”, afirmou.
Entre os mais de 9,7 mil projetos do Novo PAC, 190 têm potencial de contribuir para a integração regional. Há ainda a expectativa de que os bancos regionais de desenvolvimento — como BID, CAF e Fonplata — destinem até US$ 7 bilhões para essas iniciativas. No âmbito doméstico, o BNDES pode liberar até US$ 3 bilhões para as obras de infraestrutura nos estados fronteiriços.
Dados do Ministério do Planejamento mostram que o comércio com a Ásia disparou nas últimas duas décadas, enquanto os fluxos com os países sul-americanos cresceram em ritmo mais lento. Em 2023, o Brasil exportou US$ 152,4 bilhões para os asiáticos, contra US$ 40 bilhões para os vizinhos. A aposta nas novas rotas é uma tentativa de equilibrar essa balança, reabrindo caminhos antes negligenciados.