Portugal
Grécia compra aviões da Embraer e Portugal lucra 30 milhões de euros
País é o oitavo integrante da OTAN a comprar o KC-390 Millennium. Operação envolve três unidades, com opção de mais três. Transação será fechada por meio da Portugal, que ganhará comissão
O governo da Grécia anunciou nesta segunda-feira, 2 de novembro, que irá comprar até seis aviões de transporte KC-390 Millennium da brasileira Embraer — dona da portuguesa OGMA —, consolidando a posição da aeronave no mercado europeu. O país será o nono no continente e o oitavo da aliança militar Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a escolher o modelo.
Segundo o Ministério da Defesa grego, três aeronaves serão adquiridas agora, com mais três opções de compra por meio de um acordo conjunto com Portugal, que já recebeu quatro dos seis aviões que encomendou da Embraer.
Pelo arranjo, Lisboa deverá fazer a compra dessas aeronaves adicionais e as repassará para Atenas, auferindo um lucro equivalente hoje a 30 milhões de euros (R$ 180 milhões) em um negócio de 600 milhões de euros (R$ 3,6 bilhões). O negócio direto grego com a Embraer não teve valores divulgados.
A vantagem para a Grécia está na rapidez da entrega, já que o arranjo entre Portugal e a Embraer permite passar aviões na fila de produção. Com isso, o primeiro KC-390 do país será entregue já no próximo ano.
Hoje Atenas opera o avião de transporte que vem sendo devorado pelo KC-390 na Europa, o venerando C-130 Hércules. São 15 unidades do modelo quadrimotor turboélice americano, onipresente no mercado mundial desde os anos 1950 e que transporta até 19 toneladas.
O avião brasileiro, além de mais moderno e com dois motores a jato, leva até 26 toneladas. E a Grécia comprou a versão KC, em que o K indica a capacidade de reabastecimento aéreo que hoje seus Hércules não têm. Os gregos ainda voam 13 cargueiros italianos C-27J, para 11,5 toneladas. Na Europa, há cerca de 130 Hércules em operação.
Da Europa à Índia
A Embraer conseguiu fincar bandeira nesse mercado, e já vendeu seis unidades para Portugal, cinco para a Holanda, quatro para a Suécia, dois para a Hungria, dois para a República Tcheca, três para a Lituânia, três para a Eslováquia e quatro para a Áustria — único país que não é da OTAN, mas opera em coordenação com a aliança de 30 países europeus, mais Canadá, liderada pelos Estados Unidos.
No caso dos Estados Bálticos, ainda não há contrato finalizado. O KC-390 também foi comprado por clientes da Ásia (Coreia do Sul e Uzbequistão), Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos) e América Latina (Colômbia).
A Embraer tem na mira ainda o maior mercado militar do mundo, os EUA, e a gigante asiática Índia. No primeiro caso, o obstáculo maior é que ainda há versões modernizadas do Hércules sendo feitas, enquanto a negociação com os indianos está mais avançada — lá, a expectativa é de uma encomenda de dezenas de aviões.
O KC-390 foi desenvolvido a partir de um pedido da Força Aérea Brasileira (FAB) em 2008, e o primeiro cargueiro foi entregue 11 anos depois. O negócio teve percalços, e a encomenda foi reduzida de 28 para 19 aviões, oito dos quais foram entregues. No meio do caminho, contudo, o avião tornou-se um sucesso de exportação.
Efeito Trump
Além de um projeto elogiado no mercado, há a realidade geopolítica: enquanto sua linha de produção começou a pegar ritmo em Gavião Peixoto (SP), o mundo afundou em um período de instabilidade, com guerras entre Estados voltando a ser a norma, como se viu quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia em 2022 e no ataque americano-israelense ao Irã, neste ano.
Com isso, houve uma aceleração global nos gastos militares, puxada pela percepção europeia de ameaça russa e pela volta de Donald Trump ao poder. O presidente americano tratou de desengajar-se das responsabilidades de defesa dos aliados continentais da OTAN, levando a um programa de rearmamento.
Neste ano, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, os países da Europa programaram gastar 90% a mais com defesa, em termos nominais, do que no 2021 que antecedeu a Guerra da Ucrânia.
No caso da Grécia, que é afetada também pela instabilidade no Oriente Médio e no leste do Mediterrâneo, o rearmamento também acompanha a escalada de pretensões estratégicas de sua maior rival histórica, a parceira de OTAN Turquia. No ano passado, Atenas aprovou um plano de gasto com armas equivalente a 22 bilhões (mil milhões) de euros (R$ 135 bilhões) em 12 anos, do qual a compra dos KC-390 é o primeiro passo.
Esta reportagem integra uma série de matérias do jornal Público, de sua editoria Público Brasil, publicado pela Rede BE News, a partir da parceria firmada entre os dois veículos. São reportagens destacando as novidades e os desafios dos imigrantes brasileiros em terras lusitanas ou, nas palavras da equipe do Público Brasil, “histórias e notícias para a comunidade brasileira que vive ou quer viver em Portugal”. A matéria original pode ser acessada por este link.