Logística
Hidrovias entram em alerta com El Niño no 2º semestre
Região Norte pode ter impactos na navegação, enquanto Sul deve enfrentar chuvas intensas
O fortalecimento do El Niño 2026-2027 elevou o nível de atenção sobre a infraestrutura logística brasileira, especialmente na Região Norte, onde mudanças no regime de chuvas podem afetar os níveis dos rios e a navegação em corredores estratégicos para o transporte de cargas e o escoamento de commodities.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) passou a indicar 100% de probabilidade de ocorrência do fenômeno nos próximos trimestres, enquanto a Organização Meteorológica Mundial (WMO) projeta rápida intensificação, com possibilidade de atingir forte intensidade até setembro. A NOAA também estima 97% de chance de o evento persistir até o início de 2027.
O fenômeno já apresenta sinais de fortalecimento. Segundo a NOAA, a temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou a 1,2°C acima da média no início de julho. A WMO projeta anomalias superiores a 2°C no Pacífico Equatorial durante o pico do evento.
No Brasil, projeções indicam chuvas abaixo da média no centro-norte e acima da média em partes da Região Sul entre julho e setembro, além de temperaturas mais elevadas no segundo semestre.
Hidrovias no radar
O comportamento das chuvas é relevante para a infraestrutura hidroviária da Amazônia. A redução das vazões pode comprometer a navegação em rios usados no transporte de produtos agrícolas e insumos, com risco de restrições operacionais, redução de carga por embarcação e uso de rotas alternativas.
Entre os corredores monitorados estão as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Amazonas, que conectam áreas produtoras aos portos da Região Norte.
O impacto pode alcançar também os portos, já que alterações nos níveis dos rios afetam o planejamento operacional e a capacidade de transporte das embarcações.
Apesar do cenário de atenção, dados recentes da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) não indicam, até o momento, uma crise hidrológica generalizada. A situação segue sob monitoramento e, em algumas áreas, permanece próxima da normalidade.
O ponto de atenção está na evolução do fenômeno nos próximos meses. A intensificação do El Niño, combinada à redução persistente das chuvas, pode converter o risco climático em problema logístico, especialmente em períodos de maior demanda pelo transporte de grãos.
Pressão sobre o agronegócio
O agronegócio também está entre os setores mais expostos. No centro-norte, o déficit de chuvas e as temperaturas elevadas podem afetar a produção e pressionar a logística de escoamento. No Sul, o excesso de precipitações pode prejudicar operações agrícolas e a circulação da produção.
A combinação entre perdas agrícolas e dificuldades na navegação pode elevar custos logísticos, afetar a oferta de cargas e alterar o uso dos modais.
O setor elétrico também entrou no radar. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) programou para este mês uma discussão sobre os impactos do chamado “Super El Niño” na resiliência do sistema elétrico, incluindo efeitos sobre geração, transmissão e segurança operacional.