Logística
IA eleva projeção do comércio global e desafia logística brasileira
OMC revisou de 1,9% para 3,9% a previsão de crescimento do comércio de mercadorias em 2026
O avanço dos investimentos em inteligência artificial (IA) levou a Organização Mundial do Comércio (OMC) a mais que dobrar a projeção de crescimento do comércio mundial de mercadorias em 2026, de 1,9% para 3,9%. Semicondutores, servidores e outros produtos que viabilizam a infraestrutura de IA responderam por 47% do crescimento do comércio global de bens em valor no primeiro semestre, evidenciando como a expansão tecnológica está reorganizando as cadeias internacionais de suprimentos.
A revisão, divulgada pela OMC em 8 de outubro, reflete uma demanda crescente por equipamentos de alto valor agregado, utilizados na construção e operação de data centers e sistemas de processamento de inteligência artificial. O comércio desses bens avançou 67% na comparação com o primeiro semestre de 2025. Para 2027, a organização projeta crescimento de 4,1% no volume do comércio mundial de mercadorias.
O movimento, porém, não beneficia todas as economias na mesma proporção. Países mais integrados às cadeias produtivas de tecnologia tendem a capturar parcela maior dessa expansão, enquanto economias com pautas exportadoras concentradas em commodities enfrentam o desafio de ampliar sua participação nos segmentos de maior valor agregado.
“A revisão da projeção da OMC revela uma transformação importante na dinâmica do comércio internacional, em que a IA deixa de movimentar apenas o mercado de serviços digitais para impulsionar também o comércio físico de mercadorias”, afirma o fundador e CEO da Einship, empresa de tecnologia especializada em inteligência de dados e gestão de operações de comércio exterior, Luiz Policarpo.
A expansão do comércio de bens ligados à IA também aumenta a exigência sobre as operações logísticas. Nesse cenário, os portos brasileiros precisam combinar capacidade operacional, eficiência na movimentação de cargas e integração com os demais elos da cadeia, incluindo transportadores, operadores portuários, terminais, agentes de carga e empresas importadoras e exportadoras.
“Uma das principais fragilidades das operações de comércio exterior é a fragmentação das informações. Muitas decisões ainda são tomadas com base em dados isolados, sem uma visão integrada dos custos, dos prazos e dos riscos envolvidos”, afirma.
O uso de inteligência de dados pode apoiar decisões sobre seleção de fornecedores, escolha de rotas, previsão de demanda e gestão de riscos. Com informações integradas, importadores e exportadores podem comparar alternativas logísticas e antecipar possíveis impactos sobre seus custos e cronogramas.
Caminho
Embora ainda não seja um grande produtor global de semicondutores avançados ou servidores de alto desempenho, o Brasil pode participar de diferentes etapas das cadeias relacionadas à inteligência artificial. Entre as possibilidades estão o fornecimento de insumos minerais e industriais, a atração de investimentos em data centers e o desenvolvimento de atividades industriais associadas à infraestrutura tecnológica.
A disponibilidade de fontes renováveis de energia também pode favorecer projetos intensivos em eletricidade. O desafio é transformar essas condições em investimentos e maior integração às cadeias globais de valor.
“O Brasil não precisa se tornar um grande fabricante de chips para capturar parte dos ganhos econômicos proporcionados pela inteligência artificial. Podemos utilizar a própria tecnologia para aumentar a competitividade das nossas exportações e importações”, conclui.