Infraestrutura
Investimento em infraestrutura avança, mas ainda fica abaixo do necessário
Levantamentos da Abdib e do mercado financeiro mostram aportes de até R$ 280 bilhões por ano, com mais de 70% vindos do setor privado
Os investimentos em infraestrutura no Brasil permanecem na faixa de R$ 200 bilhões a R$ 280 bilhões por ano, segundo levantamentos da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) e dados do mercado financeiro. Desse total, mais de 70% têm origem no setor privado.
Apesar do avanço, o volume ainda está abaixo do necessário para reduzir o déficit acumulado ao longo de décadas. Especialistas estimam que o País precisaria investir de forma contínua cerca de 4,3% do Produto Interno Bruto (PIB) por ano em infraestrutura. Atualmente, os aportes representam aproximadamente 2% a 2,5% do PIB.
A capacidade de ampliar esses investimentos está diretamente relacionada ao ambiente regulatório, à segurança jurídica, às condições de financiamento e à qualidade do planejamento dos projetos. Empreendimentos de infraestrutura costumam exigir contratos de longo prazo e elevados volumes de capital, com retorno distribuído ao longo de décadas.
Marcos regulatórios atualizados e agências com autonomia técnica e decisória são apontados como elementos importantes para dar previsibilidade aos investimentos. No Brasil, 13 agências reguladoras federais atuam em áreas como energia, transportes, telecomunicações, petróleo e saúde suplementar.
Essas autarquias especiais têm atribuições de regulamentação, fiscalização e acompanhamento da prestação de serviços ou de atividades econômicas sob regulação pública.
Outro fator relevante é o amadurecimento do mercado de capitais. Instrumentos como debêntures incentivadas de infraestrutura e fundos de investimento em infraestrutura (FI-Infra) ampliaram as alternativas de financiamento para concessionárias e investidores, reduzindo a dependência de recursos públicos e de bancos de desenvolvimento.
Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o volume negociado no mercado de capitais alcançou R$ 73,4 bilhões em março de 2026. O resultado superou tanto os valores registrados nos dois primeiros meses do ano quanto os R$ 63,5 bilhões movimentados em março de 2025.
Entraves
Entre os fatores que dificultam a expansão da infraestrutura estão a demora em processos de licenciamento, falhas na elaboração dos projetos, dificuldades em desapropriações e disputas contratuais prolongadas.
O licenciamento ambiental aparece entre os principais pontos de atenção do setor produtivo, especialmente quando há diferenças de procedimentos e prazos entre órgãos municipais, estaduais e federais. A ausência de uniformidade pode aumentar o tempo necessário para o início das obras e elevar os custos dos empreendimentos.
Um dos exemplos é a BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO). O chamado Trecho do Meio, com cerca de 405 quilômetros sem pavimentação, permanece há mais de duas décadas no centro de discussões envolvendo licenciamento ambiental, obras e decisões judiciais.
Outro caso é a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), na Bahia, que acumula mudanças de cronograma e paralisações em diferentes etapas. O projeto teve início há 18 anos e, segundo os dados apresentados, cerca de 75% das entregas previstas foram concluídas.
Quando finalizado, o trecho de 537 quilômetros entre Caetité e Ilhéus deverá funcionar como corredor para o transporte de minério de ferro e grãos do sudoeste baiano.
Também pesam sobre os projetos as dificuldades para desapropriação de áreas, estudos técnicos insuficientes, que podem resultar em alterações contratuais, e o custo mais elevado do capital em períodos de juros altos.
Disputas entre poder concedente e concessionárias também podem prolongar a execução dos contratos e levar a processos de repactuação ou relicitação, mantendo ativos sem avanço por períodos extensos.
Para os próximos anos, uma das frentes apontadas por agentes do setor é a ampliação das parcerias público-privadas (PPPs) em estados e municípios.