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Portugal

Missão empresarial do Rio busca capital europeu e vê Portugal como hub de negócios

14 de outubro de 2026 às 15:58
Da Redação Enviar e-mail para o Autor Público Brasil

Liderada pelo vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Ricardo Salles, comitiva de empresários passa por Lisboa e Luxemburgo em busca de financiamento, parcerias e oportunidades

Em busca de investimentos, novos mercados e oportunidades de expansão internacional, uma comitiva de empresários do Rio de Janeiro desembarcou em Portugal onde teve uma série de encontros destinados a fortalecer as relações comerciais entre Brasil e Europa. A iniciativa, liderada por Ricardo Salles, vice-presidente de Negócios e Sustentabilidade da Associação Comercial do Rio (ACRJ), teve como objetivo criar novas pontes empresariais entre os dois lados do Atlântico, facilitando tanto a internacionalização de empresas brasileiras quanto a atração de capital europeu para negócios no Brasil.

De Lisboa, a missão seguiu para Luxemburgo, um dos principais centros financeiros da Europa, onde participa do Luxembourg Venture Days, em 14 e 15 de outubro. O evento reúne investidores, fundos de capital de risco, startups e empresas em busca de financiamento e parcerias comerciais. Na edição anterior, foram registrados cerca de 3.400 participantes, incluindo mais de 330 investidores e representantes de mais de 100 fundos de venture capital.

A iniciativa ocorre em um momento de novas perspectivas para as relações econômicas entre Brasil e Europa, impulsionadas pelo acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor provisoriamente em 1º de maio último. O tratado reduz gradualmente as barreiras comerciais e as tarifas e abre possibilidades de maior integração econômica entre os dois blocos.

Ricardo Salles considera que o acesso ao financiamento é um dos principais desafios enfrentados atualmente pelo empresariado brasileiro, devido às elevadas taxas de juros no Brasil, o que torna o mercado europeu uma alternativa para empresas que procuram recursos mais baratos para ampliar suas operações.

“Existe uma necessidade muito grande de financiamento. Os negócios no Brasil não estão como gostaríamos, e isso passa diretamente pela questão do investimento. As taxas de juros são muito elevadas, enquanto, na Europa, encontramos condições bastante diferentes, em alguns casos, com custos pela metade”, afirma.

Visconde de Mauá

A escolha de Luxemburgo está diretamente relacionada à concentração de fundos de investimento e instituições financeiras internacionais. Para Salles, o primeiro passo é compreender o funcionamento desse mercado e identificar possibilidades concretas de acesso ao capital europeu. “Muitas vezes, criamos barreiras mentais e pensamos: como buscar financiamento em Luxemburgo? Estamos indo justamente para conhecer esse mercado e entender as oportunidades”, explica.

O empresário estabelece um paralelo com a trajetória do Visconde de Mauá, patrono da Associação Comercial do Rio de Janeiro, que recorreu ao capital britânico para financiar empreendimentos no Brasil durante o século XIX.

“É um pouco como fez o Visconde de Mauá, patrono da nossa associação, quando foi à Inglaterra buscar recursos para impulsionar negócios no Brasil. Queremos retomar esse caminho, criando novas pontes de investimento entre o Brasil e a Europa”, afirma Salles.

Portugal como porta de entrada

Embora Luxemburgo seja um dos principais destinos da missão por sua importância no mercado financeiro, a passagem por Portugal revelou oportunidades que, segundo Salles, superaram as expectativas iniciais.

A proximidade cultural, a língua comum e a presença de estruturas especializadas no apoio à internacionalização de empresas fazem do país um ponto estratégico para empresários brasileiros interessados em alcançar o mercado europeu. “Portugal tem demonstrado uma receptividade muito grande ao Brasil e pode se tornar uma das principais portas de entrada para as empresas brasileiras no mercado europeu”, frisa Salles.

A comitiva, que conta também com a participação de Daniel Salles, incluiu na agenda em Lisboa contatos com a Embaixada do Brasil, o Oceanário de Lisboa e a Atlantic Hub, organização especializada em apoiar empresas brasileiras no processo de internacionalização. Fundada em 2016, a organização afirma já ter apoiado cerca de 300 empresas e levado mais de cinco mil empresários brasileiros a Portugal, por meio de missões e iniciativas de aproximação comercial.

Para Eduardo Migliorelli, CEO e cofundador da Atlantic Hub, a missão de empresários do Rio demonstra o interesse crescente dos brasileiros em ampliar suas atividades para além do mercado nacional, mas também abre espaço para investimentos no sentido inverso.

“Essa missão tem duas vertentes importantes: identificar empresários e investidores interessados em bons negócios no Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, apoiar empresas brasileiras que desejam expandir seus mercados e se internacionalizar”, explica.

Segundo ele, Portugal reúne condições favoráveis para receber negócios brasileiros, especialmente nas áreas de tecnologia, inovação e sustentabilidade. No entanto, ressalta que a entrada em um novo mercado exige planejamento e conhecimento das condições locais. “É fundamental realizar um estudo prévio para compreender o tamanho do mercado e identificar se já existem empresas na Europa desenvolvendo tecnologias ou soluções semelhantes”, sublinha.

Tecnologia brasileira

Entre os empresários que integram a missão está Gustavo Soares Nascimento, cofundador e CEO da PHYGITALL, empresa brasileira especializada no desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas à segurança do trabalho e à produtividade industrial.

A companhia utiliza inteligência artificial e dispositivos conectados para monitorar trabalhadores em ambientes de risco, emitir alertas e contribuir para a prevenção de acidentes. Entre seus projetos está uma operação no Complexo Boaventura, da Petrobras, em Itaboraí, no Rio de Janeiro. Segundo informações divulgadas pela própria PHYGITALL, a iniciativa envolve mais de quatro mil trabalhadores e tem potencial para alcançar oito mil.

Apesar da presença no mercado brasileiro, a empresa procura agora ampliar sua atuação internacional, tendo Portugal e Luxemburgo entre os possíveis destinos para sua expansão. “Participar desta missão faz todo o sentido para o momento que estamos vivendo. Nosso objetivo é alcançar uma escala de crescimento que nem sempre conseguimos atingir no mercado brasileiro”, explica Nascimento.

O empresário considera que o mercado europeu oferece oportunidades para soluções tecnológicas voltadas à segurança do trabalho, mas ressalta que a internacionalização também depende de acesso a capital e profissionais qualificados.

“Queremos entender como a PHYGITALL pode se internacionalizar na Europa, seja por Portugal ou Luxemburgo, e, principalmente, como o mercado europeu pode contribuir, por meio de financiamento, para viabilizar essa expansão”, afirma.

Para Nascimento, a passagem por Portugal já trouxe perspectivas positivas, especialmente pela oportunidade de conhecer o ambiente tecnológico e as estruturas de apoio à internacionalização. “Portugal tem feito um trabalho importante para se posicionar estrategicamente na Europa, mesmo tendo uma economia menor do que a de outros países do continente”, avalia.

O empresário destaca a concentração de empresas de tecnologia e desenvolvimento de software, além da realização de eventos internacionais como o Web Summit, como fatores que demonstram a capacidade portuguesa de atrair talentos e investimentos.

Caminho de duas vias

Um dos principais objetivos da iniciativa de Ricardo Salles é estabelecer uma relação comercial que vá além da simples abertura de empresas brasileiras na Europa. A proposta é também atrair investidores e empresas europeias interessados em participar de projetos no Brasil, contribuindo para o financiamento de operações, a transferência de conhecimento e a geração de empregos.

“Não podemos pensar apenas em levar empresas brasileiras para o exterior. Também precisamos atrair empresas europeias para investir no Brasil. Uma parceria internacional pode dar uma escala completamente diferente a um negócio brasileiro”, afirma Salles.

Na avaliação do dirigente, uma empresa que consiga estabelecer uma operação sustentável em Portugal poderá não apenas ampliar sua presença no mercado europeu, mas também utilizar os resultados dessa expansão para fortalecer suas operações no Brasil. Outra área identificada durante os encontros é a economia azul, que reúne atividades econômicas relacionadas aos oceanos, à inovação marítima e à sustentabilidade.

Segundo Eduardo Migliorelli, Portugal dispõe de instrumentos de financiamento e programas de apoio voltados a esses setores, que podem representar oportunidades para empresas brasileiras com projetos ligados à tecnologia e ao desenvolvimento sustentável.

A passagem por Portugal e Luxemburgo representa, segundo Ricardo Salles, apenas o início de uma estratégia mais ampla de aproximação empresarial entre Brasil e Europa. O dirigente afirma que já estão previstas novas viagens nos próximos meses, incluindo uma segunda passagem pela Europa em dezembro e outra em fevereiro. “Esse é apenas o começo. Já temos novas viagens programadas para os próximos meses, com o objetivo de ampliar os contatos e desenvolver novas oportunidades de negócios”, afirma.

Plataforma de conexão

A intenção é ampliar a participação de empresários, aprofundar os contatos iniciados nesta primeira etapa e estruturar uma plataforma permanente de conexões internacionais, com o apoio do Instituto BR+ e do Centro de Negócios da Associação Comercial.

Salles ressalta que a iniciativa não pretende ficar restrita aos associados da entidade ou aos participantes do Instituto BR+. “A iniciativa não é exclusiva para quem faz parte da Associação Comercial do Rio de Janeiro ou do BR+. É voltada a todos que desejam crescer, se desenvolver e alcançar novos mercados”, afirma.

Para os empresários que integram a missão, os resultados concretos ainda dependerão da evolução das negociações, da identificação de parceiros e da viabilidade dos projetos apresentados. Mas a expectativa é de que os encontros realizados em Portugal e Luxemburgo representem o primeiro passo para uma rede de negócios mais ampla, capaz de aproximar investidores, empresas e oportunidades dos dois lados do Atlântico.

Mais do que uma missão empresarial pontual, a aposta é transformar as relações históricas entre Brasil e Portugal em uma plataforma de crescimento econômico, com acesso a capital, inovação e novos mercados.

Esta reportagem integra uma série de matérias do jornal Público, de sua editoria Público Brasil, publicado pela Rede BE News, a partir da parceria firmada entre os dois veículos. São reportagens destacando as novidades e os desafios dos imigrantes brasileiros em terras lusitanas ou, nas palavras da equipe do Público Brasil, “histórias e notícias para a comunidade brasileira que vive ou quer viver em Portugal”. A matéria original pode ser acessada por este link.

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