Portos
Modernização no Porto de Santos exige novas competências profissionais
Segundo especialistas, empresas de logística e comércio exterior passam a valorizar habilidades em ferramentas digitais e integração de sistemas
A modernização do Porto de Santos, acompanhada pela ampliação da movimentação de cargas e por projetos de digitalização, tende a modificar o perfil dos profissionais demandados pelas empresas de logística e comércio exterior na Baixada Santista. Além do conhecimento das operações portuárias, atividades ligadas à análise de dados, à gestão de processos e à integração de sistemas ganham importância, segundo avaliação da professora Gisele Souza, especialista em comércio exterior e docente da Esamc Santos.
O complexo portuário movimentou 186,4 milhões de toneladas em 2025, maior volume de sua história, e registrou 5,9 milhões de TEU (unidade equivalente a um contêiner de 20 pés). Em valor, respondeu por 29,6% das transações de comércio exterior do Brasil. O avanço tecnológico também deve alterar a forma de planejar e acompanhar as operações.
Entre as iniciativas associadas à modernização estão aplicações de redes 5G, Internet das Coisas, gêmeos digitais e sistemas de gerenciamento do tráfego de embarcações, como o VTMIS. A eletrificação do cais também integra os projetos voltados à infraestrutura. Essas tecnologias permitem cruzar informações sobre atracação, documentação, cargas, caminhões e pátios.
“A pergunta deixa de ser apenas ‘o navio chegou?’ e passa a ser: com os dados que temos, qual é a melhor decisão para reduzir tempo, custo e risco dessa operação?”, afirma Gisele. Na avaliação da professora, a automação pode reduzir a necessidade de algumas tarefas repetitivas, ao mesmo tempo que aumenta a importância de profissionais capazes de interpretar indicadores e identificar problemas antes que afetem o andamento das operações.
Áreas de atuação
Uma das frentes citadas pela especialista é a inteligência operacional, com uso de painéis de indicadores e análise de dados para acompanhar a produtividade dos terminais e a circulação de cargas. Ferramentas de inteligência artificial também podem ser empregadas na previsão de atrasos, na identificação de gargalos e no planejamento da manutenção de equipamentos. Segundo Gisele, o conhecimento tecnológico precisa estar associado à compreensão dos processos logísticos.
Outra área é a gestão da cadeia de suprimentos, que acompanha mercadorias dos fornecedores ao destino final. No comércio exterior, a combinação de conhecimentos sobre legislação, custos, tecnologia e relações internacionais pode ganhar relevância diante de mudanças tarifárias, sanções e conflitos que alteram rotas comerciais e prazos de entrega.
Os projetos de infraestrutura previstos para a região também podem demandar profissionais de planejamento, contratos, suprimentos e gerenciamento de riscos. Gisele cita o Túnel Santos–Guarujá, empreendimento com investimento estimado em R$ 6,8 bilhões, como exemplo de obra que envolve diferentes áreas técnicas e administrativas.
Sustentabilidade e segurança aparecem entre as demais especialidades mencionadas. A possibilidade de fornecer energia elétrica a navios atracados, reduzindo a utilização de motores movidos a combustível durante a permanência no cais, requer conhecimentos de gestão ambiental e eficiência energética. Já o uso crescente de sistemas conectados torna relevantes os cuidados com segurança cibernética e conformidade regulatória.
Formação profissional
Para a professora, as mudanças exigem formação que combine domínio técnico e capacidade de articulação entre diferentes áreas. Ela destaca o inglês, o uso de ferramentas digitais, a comunicação e a visão do funcionamento completo da cadeia logística, além da atualização profissional contínua.
“Uma operação portuária envolve ao mesmo tempo navio, carga, documentação, tecnologia, transporte, custo, legislação, meio ambiente e segurança”, afirma. Gisele ressalta que a qualificação da mão de obra regional será um dos desafios para acompanhar a adoção dessas tecnologias, especialmente em funções que dependem de conhecimentos simultâneos de logística, dados e gestão.