Brasil Export
Multimodalidade já alcança 31% dos operadores logísticos brasileiros
Levantamento da Abol mostra avanço entre grandes empresas, mas aponta obstáculos relacionados à infraestrutura, integração de sistemas e regulaçã
A utilização de diferentes modais de transporte em uma mesma operação logística já faz parte da realidade de 31% das empresas representadas pela Associação Brasileira de Operadores Logísticos (Abol). Entre os operadores de grande porte, esse percentual chega a 44%. Apesar do avanço, a ampliação da multimodalidade no Brasil ainda enfrenta dificuldades relacionadas à infraestrutura, à disponibilidade de rotas e à integração dos sistemas de transporte.
Os dados foram apresentados pela diretora-presidente da Abol, Marcella Cunha, durante um painel técnico do Fórum Nacional Brasil Export 2026, em Brasília. O debate reuniu representantes do Governo Federal e do setor privado para discutir os desafios do Plano Nacional de Logística (PNL) 2050 e as condições necessárias para ampliar a eficiência do transporte de cargas.
“A multimodalidade não é abstrata, ela existe. Hoje, 31% da nossa base utiliza multimodalidade. Quando olhamos para os operadores de grande porte, 44% conseguem oferecer”, afirmou Marcella.
Segundo a executiva, as operações que combinam rodovias, ferrovias e cabotagem dependem de melhorias que ultrapassam os investimentos em cada modalidade. Ela defendeu uma atuação coordenada entre União, estados, municípios, empresas privadas e agências reguladoras para enfrentar os obstáculos existentes.
“A gente tem que atacar todos esses problemas: infraestrutura, integração de sistemas e regulação”, destacou.
Levantamentos da Abol apontam que ferrovias e hidrovias estão entre os modais que exigem maior atenção, especialmente pela necessidade de ampliar a oferta de rotas e melhorar as conexões com os demais sistemas de transporte.
Diversificação das cargas
O presidente da Infra S.A., Jorge Bastos, também defendeu o fortalecimento da multimodalidade, destacando a necessidade de aproveitar melhor o potencial brasileiro para o transporte aquaviário e ferroviário.
“Nós temos uma costa enorme e a nossa cabotagem não funciona como poderia. Temos que pensar na cabotagem e ver o que falta para fazer essa modalidade avançar”, afirmou.
Bastos ressaltou que a expansão das ferrovias precisa ser acompanhada pela diversificação das mercadorias transportadas. Segundo ele, o modal permanece fortemente associado ao escoamento de grãos e minérios, embora tenha potencial para atender outros segmentos da economia.
“Temos que tirar um pouco da ferrovia essa característica de transportar só grãos e minérios para transportar também outros tipos de cargas. É impossível você andar 2 mil ou 3 mil quilômetros com transporte rodoviário. Temos que tentar mudar esse tipo de modal”, declarou.
O executivo apontou ainda a necessidade de ampliar as fontes de financiamento para o setor ferroviário, inclusive com o direcionamento de recursos gerados pela própria atividade para novos investimentos.
“O modal ferroviário depende muito de investimento. Temos que entender que uma coisa é gasto e outra é investimento em infraestrutura”, afirmou.
Para Bastos, a conexão entre ferrovias, portos e hidrovias é fundamental para permitir que diferentes modalidades sejam utilizadas de maneira complementar no transporte de cargas.
Planejamento de longo prazo
As discussões sobre a ampliação da multimodalidade também integram a elaboração do PNL 2050, instrumento destinado a orientar o planejamento da infraestrutura logística brasileira nas próximas décadas.
O coordenador-geral de Política de Planejamento do Ministério dos Transportes, Danilo Imbimbo, explicou que a construção do plano começou em 2024 e contou com seis consultas públicas, realizadas ao longo de aproximadamente dois anos e meio, para receber contribuições do setor privado e da sociedade.
Segundo ele, a conclusão do PNL será acompanhada pela publicação dos planos setoriais, prevista para o fim de 2026. A etapa seguinte, programada para 2027, envolverá a elaboração dos planos gerais, responsáveis por conectar as diretrizes de longo prazo ao Plano Plurianual (PPA) e ao próximo ciclo orçamentário.
“Aí vamos começar a ver efetivamente quais obras que estão no cenário-meta serão prioridade das próximas gestões nos próximos quatro anos”, explicou.
Imbimbo destacou que o planejamento deverá passar por revisões periódicas e dependerá do acompanhamento da sociedade para que as propostas sejam efetivamente implementadas.
“A gente espera que o plano de fato vá para frente e seja um plano de Estado. É importante todo mundo ter o plano embaixo do braço e cobrar para que aquilo que foi construído conjuntamente saia do papel”, concluiu.