Portos
Novo mandato de Lula exigirá ajuste das contas públicas, diz Vescovi
Durante encontro da ATP, economista destaca impactos do endividamento e dos juros sobre projetos portuários e logísticos
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para mais quatro anos de mandato coloca o ajuste das contas públicas entre os principais desafios da política econômica brasileira, segundo a economista Ana Paula Vescovi. Durante palestra no XIII Encontro da Associação de Terminais Portuários Privados (ATP), nesta terça-feira (27), em Brasília, ela alertou que o endividamento público, os juros altos e a insegurança jurídica comprometem os investimentos, especialmente em projetos de infraestrutura e logística.
Vescovi afirmou que o resultado das urnas não define as decisões econômicas que serão adotadas a partir de 2027. Na avaliação da economista, o novo mandato precisará apresentar medidas para recuperar a confiança dos investidores e controlar o crescimento das despesas públicas, em um cenário de desaceleração da economia e encarecimento do crédito.
Entre os indicadores apresentados, ela destacou a taxa Selic de 13,75% ao ano, a inflação acumulada de 4,60% em 12 meses e a dívida pública próxima de 82% do Produto Interno Bruto (PIB), com possibilidade de alcançar 84% até o encerramento de 2026. Segundo Vescovi, o custo de refinanciamento da dívida brasileira está entre os mais elevados do mundo.
A economista defendeu mudanças nas despesas obrigatórias, que, segundo sua apresentação, crescem em ritmo superior ao da economia. Ela estimou que seria necessário um esforço fiscal de aproximadamente R$ 300 bilhões para transformar um déficit primário de 0,5% do PIB em superávit de 2%.
Para Vescovi, o controle dos gastos dependerá de reformas legais e constitucionais, com atenção às despesas previdenciárias, aos benefícios tributários e à eficiência na aplicação dos recursos públicos.
Um dos pontos centrais da palestra foi a relação entre a situação fiscal e os investimentos privados em infraestrutura. Vescovi apresentou cálculos segundo os quais cada ponto percentual adicional no custo de capital reduz em aproximadamente 7,8% o valor de um projeto.
A economista afirmou que a elevação das taxas de juros representa uma dificuldade adicional para empreendimentos que exigem financiamentos de longo prazo, como portos, ferrovias e rodovias. Segundo ela, uma alta de dois pontos percentuais nas taxas de longo prazo representa perda estimada entre 15% e 20% no valor de projetos de infraestrutura.
“A credibilidade fiscal vai para o prêmio de risco, afeta a curva longa, o custo do capital e sensibiliza muito pesadamente os projetos mais longos”, afirmou.
Mercado de capitais
Vescovi também chamou atenção para o mercado de capitais, que ganhou participação no financiamento da infraestrutura por meio de instrumentos como as debêntures incentivadas. Segundo ela, as emissões desses títulos registraram queda de aproximadamente 25%, enquanto o aumento dos custos financeiros dificulta a contratação de novos recursos e o refinanciamento das operações existentes.
No setor portuário, a economista destacou a importância de regras estáveis, licenciamento ambiental, melhorias nos acessos terrestres e aquaviários e integração entre os diferentes modos de transporte.
Ela citou a necessidade de investimentos em dragagem e mencionou as restrições à navegação no Rio Tapajós, que prejudicam o escoamento da produção agrícola. Na avaliação de Vescovi, intervenções para assegurar condições adequadas de navegação exigem atuação do poder público.
A palestrante também apontou a experiência do Porto de Vitória, no Espírito Santo, como exemplo de expansão da infraestrutura com participação privada. Mencionou ainda projetos de novos terminais no estado e a necessidade de modernização tecnológica das operações portuárias.
Segurança jurídica
Outro tema abordado foi a segurança jurídica. Vescovi defendeu a simplificação das exigências regulatórias, a redução de sobreposições entre órgãos públicos e a qualificação técnica das agências reguladoras. Para ela, a complexidade dos contratos de infraestrutura exige maior especialização também do Poder Judiciário.
“A segurança jurídica é o ativo mais barato que a gente pode mover rapidamente”, afirmou.
Ao tratar das oportunidades para os próximos quatro anos, Vescovi destacou a posição brasileira no comércio internacional, especialmente pela oferta de alimentos, energia e minerais. Segundo ela, o país reúne condições favoráveis para ampliar sua participação nas cadeias globais de produção, mas precisa reduzir seus custos logísticos e melhorar a competitividade.
Entre os pontos que deverão ser acompanhados nos próximos meses, a economista mencionou a formação da equipe econômica do novo mandato, a revisão do Orçamento de 2027, as decisões sobre juros e a apresentação de medidas fiscais ao Congresso Nacional.