Hidrovias
Seca reduz capacidade de barcaças no Tapajós em até 60%
Licitação da hidrovia depende de licença ambiental e consulta a comunidades indígenas
A redução do nível das águas do Rio Tapajós já obriga barcaças utilizadas no transporte de grãos a operar com apenas 55% a 60% da capacidade de carregamento. A restrição atinge principalmente o trecho entre Miritituba e Santarém, no Pará, um dos principais corredores de escoamento da produção agrícola do Arco Norte. O cenário é agravado pela ausência de dragagens de manutenção, cuja contratação permanece sem previsão de retomada após sucessivos impasses ambientais e judiciais.
A limitação ocorre em um período de estiagem mais intensa, associada à expectativa de influência do fenômeno El Niño. Com menor profundidade, as embarcações precisam reduzir o volume transportado para diminuir o calado e evitar acidentes ou encalhes em trechos críticos da hidrovia.
O corredor é utilizado para escoar a produção de Mato Grosso que chega por caminhões pela BR-163 até Miritituba. Nos terminais portuários da região, os grãos são transferidos para barcaças que percorrem o Tapajós até Santarém, de onde seguem para embarque em navios destinados à exportação.
Segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), a operação com carga reduzida já eleva os custos logísticos, uma vez que exige mais embarcações e viagens para transportar o mesmo volume de mercadorias. Embora o período atual não corresponda ao pico de escoamento da safra, os terminais ainda movimentam estoques remanescentes, principalmente de milho. A preocupação do setor é com a próxima colheita, a partir de janeiro, quando a demanda por transporte volta a crescer.
A entidade alerta também para a possibilidade de interrupções temporárias da navegação em pontos mais críticos, o que exigiria o redirecionamento de cargas para outros corredores logísticos.
O impacto não se limita às exportações de grãos. O diretor de Economia e Assuntos Regulatórios da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Furlan, destaca que a hidrovia também é utilizada no abastecimento regional de insumos agrícolas, especialmente fertilizantes. Segundo dados da entidade, o Tapajós transportou 9,2 milhões de toneladas de soja em grãos em 2025 e quase 12 milhões de toneladas entre janeiro e setembro de 2026.
Rodovias
O Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) informou que acompanha as condições de navegabilidade do Tapajós em conjunto com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Em caso de agravamento das restrições, o governo federal poderá adotar medidas de contingência, entre elas o uso complementar do transporte rodoviário.
O MPor informou ainda que a estação de monitoramento de Itaituba (PA), referência para o acompanhamento do trecho, registrou elevação de 17 centímetros no nível do rio na última semana. Na comparação com períodos anteriores, a marca estava 83 centímetros acima do nível registrado na mesma data de 2024, mas 81 centímetros abaixo do observado em 2025.
A ampliação do transporte rodoviário para substituir a navegação enfrenta obstáculos operacionais. Uma das alternativas discutidas pelo setor seria levar os grãos de Miritituba até Santarém por caminhões, evitando o trecho hidroviário mais afetado. Parte desse percurso, porém, não é pavimentada, o que dificulta a operação em larga escala e reduz a vantagem econômica do modal rodoviário.
Outra possibilidade seria transferir cargas para portos do Sul e do Sudeste, como Santos e Paranaguá. A mudança, contudo, implica trajetos mais longos e maior pressão sobre corredores que já enfrentam períodos de elevada demanda durante o escoamento das safras. O redirecionamento também poderia sobrecarregar rodovias, ferrovias e terminais portuários dessas regiões.
Dragagem
A ausência de manutenção no Tapajós está relacionada a um impasse iniciado em fevereiro, quando o DNIT suspendeu uma licitação para contratar os serviços de dragagem após manifestações em Santarém, com participação de povos indígenas. O processo chegou a ser retomado, mas voltou a ser interrompido.
Em outubro, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que a licitação, estimada em R$ 74,8 milhões, somente poderá avançar após a obtenção de licença prévia e a realização de consulta prévia, livre e informada às comunidades potencialmente afetadas.
A exigência de licenciamento é um dos principais pontos de divergência entre órgãos públicos e representantes do setor. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovada em 2025, prevê dispensa de licença para determinadas atividades de manutenção de baixa complexidade, desde que observados os requisitos legais. A aplicação dessa regra às dragagens do Tapajós, entretanto, é objeto de interpretações divergentes e de questionamentos judiciais.
Plano
A Abiove afirma que vem solicitando medidas preventivas ao governo federal por meio de ofícios encaminhados ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), à Casa Civil, ao MPor e ao DNIT. A principal solução estrutural defendida pelo setor é a concessão das hidrovias, com transferência de responsabilidades como a realização periódica de dragagens para operadores privados.