Hidrovias
Fiepa pede emergência no Pará diante de risco de interrupção da navegação no Tapajós
Entidade alerta para queda do nível do rio a partir de agosto e estima que até 5 milhões de toneladas de grãos possam ter o escoamento comprometido
A Federação das Indústrias do Estado do Pará (Fiepa) pediu ao governo estadual que decrete situação de emergência diante do risco de redução do nível dos rios e de interrupção da navegação no Tapajós durante a estiagem de 2026. O pedido ocorre após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desautorizar, no fim de julho, a realização de uma dragagem de manutenção na hidrovia.
A intervenção vinha sendo defendida pelo setor produtivo como medida preventiva para preservar a navegabilidade e garantir o transporte de cargas e o abastecimento da região durante o período de seca. Segundo a Fiepa, a navegação poderá começar a sofrer restrições já neste mês, com embarcações obrigadas a reduzir a quantidade de carga transportada para diminuir o calado.
O cenário pode elevar os custos logísticos e reduzir a eficiência do corredor. Em documento encaminhado ao governo estadual, a federação afirma que, sem intervenções nos pontos críticos, a navegação poderá ser interrompida em trechos mais sensíveis a partir de meados de setembro.
Relatórios técnicos elaborados pela Coalizão Empresarial Portuária, com base em dados do Serviço Geológico do Brasil e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), apontam que o nível do Tapajós em 2026 segue trajetória semelhante à observada durante as secas severas de 2023 e 2024.
A estimativa da entidade é de que, sem intervenção, a redução do nível do rio possa comprometer o transporte de até 5 milhões de toneladas de grãos, além de afetar o abastecimento de combustíveis de 17 municípios da região.
A preocupação é especialmente relevante para o corredor de exportação do Arco Norte. O Tapajós é utilizado para transportar cargas agrícolas até terminais instalados na região de Miritituba, de onde os produtos seguem para os mercados consumidores.
Representantes do setor logístico ouvidos sobre o tema afirmam que a redução da capacidade de carga das embarcações poderia comprometer a competitividade da soja e do milho produzidos no Norte e no Centro-Oeste.
Uma eventual migração para o transporte rodoviário também é apontada como alternativa mais cara e com maior impacto ambiental. Segundo interlocutores do setor, o custo poderia ser pelo menos dez vezes superior ao da solução hidroviária, enquanto comboios de barcaças conseguem transportar volumes equivalentes a centenas de caminhões.
Sete pontos críticos
A preocupação do setor ocorre também por causa das condições atuais da hidrovia. Em ofício encaminhado em julho ao Ministério dos Povos Indígenas, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) identificou sete trechos críticos do Tapajós, nos quais o acúmulo de sedimentos já estaria comprometendo a segurança da navegação.
O documento integra o processo de avaliação da necessidade de realização da dragagem de manutenção.
A intervenção, contudo, foi desautorizada pelo governo federal após manifestações de lideranças indígenas e movimentos sociais do Baixo Tapajós. As organizações questionam a ausência de consulta prévia aos povos originários e afirmam que a movimentação dos sedimentos poderia ampliar riscos de contaminação por mercúrio.
Segundo nota técnica do DNIT citada no material, os pontos previstos para intervenção ficam a pelo menos 10 quilômetros de terras indígenas homologadas na região. O documento também cita resultados de laudos referentes à dragagem emergencial realizada em 2025, nos quais as concentrações de arsênio, chumbo e mercúrio teriam ficado abaixo dos limites estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama).
O impasse coloca em lados opostos as preocupações com a segurança da navegação e o escoamento da produção e as reivindicações de comunidades indígenas sobre os impactos ambientais das intervenções no rio.
Uma liderança indígena ouvida sobre o tema afirmou que dragagens realizadas anteriormente teriam provocado impactos sobre peixes e quelônios, além de alterações na coloração da água. Na avaliação apresentada, uma eventual estiagem severa não necessariamente isolaria as comunidades indígenas, que já possuem estratégias próprias para enfrentar períodos de seca.
O governo federal, por sua vez, informou que considerou aspectos logísticos, ambientais e sociais ao suspender o processo. Segundo a Secretaria de Comunicação, a avaliação atual é de que a navegação local, predominantemente realizada por embarcações menores e de menor calado, poderá ser mantida mesmo com a redução do nível das águas.
Para cargas de maior porte, o governo aponta o corredor rodoviário como alternativa já utilizada na região.
No Pará, o governo estadual informou que prepara um decreto com medidas para mitigar os efeitos da estiagem associada ao El Niño.
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