Portos
IA gera US$ 65 milhões em ganhos logísticos à Vale
Plataforma de planejamento portuário tem retorno estimado em nove vezes o investimento em dois anos
A aplicação de inteligência artificial (IA) na logística marítima gerou aproximadamente US$ 65 milhões (cerca de R$ 348 milhões) em ganhos para a Vale, segundo a mineradora. O resultado está associado à otimização da velocidade dos navios e ao melhor planejamento das chegadas aos terminais, que permitiram evitar a contratação de cerca de 12 embarcações do tipo Capesize no mercado spot (à vista).
Os resultados fazem parte da estratégia da mineradora de ampliar a produtividade da infraestrutura existente sem depender exclusivamente de investimentos em expansão física. Em 2025, a Vale destinou globalmente US$ 685 milhões (cerca de R$ 3,6 bilhões) a Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), montante que inclui diversas iniciativas, entre elas o desenvolvimento e a expansão de soluções de inteligência artificial.
Um dos sistemas é o AI Fleet, ferramenta que reúne informações de navegação e utiliza modelos de aprendizado de máquina para prever a chegada das embarcações e recomendar a velocidade adequada para cada navio da frota dedicada. A plataforma utiliza um banco de dados com aproximadamente 47 milhões de registros por ano e, segundo a companhia, reduziu em cerca de 50% o erro nas previsões de chegada.
O funcionamento busca evitar que navios acelerem para chegar antecipadamente a portos nos quais ainda não há disponibilidade de berço para carregamento. Ao coordenar a navegação com a programação dos terminais, a ferramenta permite melhorar o giro da frota e reduzir esperas desnecessárias.
Segundo a Vale, a frota passou a cumprir melhor as velocidades recomendadas, com aumento médio de aproximadamente 0,75 nó. A companhia estima que a elevação de 6,7% na velocidade contribuiu para melhorar o giro das embarcações e evitar a contratação adicional de cerca de 12 navios Capesize no mercado spot.
Além do efeito sobre os custos, a medida contribui para reduzir as emissões indiretas de gases de efeito estufa associadas ao transporte marítimo, classificadas como Escopo 3.
1,9 mil embarques por ano
Na operação dos terminais, a Vale utiliza o Sistema Integrado de Otimização Portuária (SIOP), conectado ao Centro de Operações Integradas (COI). A ferramenta organiza o planejamento em três módulos: sequenciamento da descarga dos vagões ferroviários, gestão dos pátios de armazenagem e programação da fila de navios.
O módulo de planejamento das atracações considera a capacidade dos píeres e carregadores, as condições de maré e correntes e as necessidades de manutenção. A proposta é substituir a regra tradicional, na qual o primeiro navio a chegar é o primeiro a atracar, por uma sequência que leve em conta as restrições e oportunidades operacionais de cada terminal.
Segundo a mineradora, esse sistema proporciona aumento superior a 1,5% nos embarques e redução de até 2% na sobre-estadia das embarcações, conhecida como demurrage. O módulo otimiza mais de 1,9 mil embarques por ano nos terminais brasileiros da companhia.
Riscos
Outra aplicação está na previsão da umidade do minério antes do embarque. A ferramenta estima o Limite de Umidade Transportável (TML), parâmetro necessário para evitar que a carga apresente risco de liquefação durante a viagem e comprometa a estabilidade dos navios graneleiros.
O modelo utiliza dez anos de dados laboratoriais e de rastreabilidade do minério, considerando variáveis como litologia, tempo de permanência nos pátios e exposição ao sol, ao vento e à chuva. Segundo a empresa, a acurácia das previsões chega a 97%, índice calculado pela comparação entre as estimativas para cada porão e os resultados efetivos das análises laboratoriais.
Automação amplia produtividade nos terminais
A companhia também utiliza sistemas automatizados na execução das operações físicas. No Terminal da Ilha Guaíba (TIG), no Rio de Janeiro, máquinas de pátio autônomas elevaram em 12,3% a performance da recuperação de minério, resultado 4,3 pontos percentuais acima do previsto no estudo de viabilidade do projeto.
Em Ponta da Madeira (MA), a utilização de drones na amarração de navios reduziu pela metade o tempo de manobra e ampliou a segurança da operação. A mineradora também está em fase de comissionamento de um projeto de operação totalmente automática no Porto de Tubarão e do primeiro carregador de navios autônomo da companhia, em Ponta da Madeira.
Os próximos passos incluem sistemas capazes de identificar desvios operacionais e refazer planos de forma autônoma, mantendo a coordenação humana sobre as decisões e a execução.
Leia mais:
Vale usa inteligência artificial para ampliar embarques e reduzir espera de navios
Vale prevê que metais básicos superem 40% do Ebitda nos próximos anos
Vale vê potencial para ampliar produção em 50 milhões de toneladas