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Instabilidade global exige que o Brasil modernize sua infraestrutura

Atualizado em: 3 de abril de 2025 às 11:06
Yousefe Sipp Enviar e-mail para o Autor

Para especialistas, conflitos internacionais e mudanças climáticas exigem que o setor se adapte rapidamente para evitar impactos econômicos

O setor de infraestrutura enfrenta desafios cada vez mais complexos para se adequar às novas realidades climáticas e geopolíticas, o que exige não apenas aprimoramentos nas operações, mas também uma revisão dos modelos contratuais das concessões em vigor no Brasil. No encerramento do primeiro dia do fórum Latam Export, realizado na quarta-feira (2), especialistas fizeram um balanço das discussões do evento, apontando a urgência da modernização do setor para assegurar sua competitividade e sustentabilidade no futuro.

Casemiro Tércio Carvalho, sócio da 4Infra, chamou a atenção para o fato de que muitos acordos de arrendamentos portuários não contemplam a necessidade de adaptação à possibilidade de desastres naturais provocados pelo aquecimento global.

“Nós temos vários leilões acontecendo, e nenhum deles está considerando SPS (shore power system) ou considerando eletrificação total do terminal. Então, assim, tem que ser arrojado já na largada”, criticou.

O shore power system (SPS) é um mecanismo que permite que navios se conectem à rede elétrica terrestre quando estão atracados.

Casemiro Tércio Carvalho

Casemiro Tércio Carvalho disse que existem mais de 200 tipos de guerras no mundo e, embora muitas delas sejam localizadas, seus efeitos reverberam na economia internacional. Foto: Divulgação/Brasil Export

“Do ponto de vista climático, pensem além da questão da mitigação, da neutralização, dos projetos de descarbonização. O governo poderia encampar, reequilibrando os contratos de arrendamento e colocando, por exemplo, os SPS”, disse. (…) “Poderia ser voluntário? Poderia. Mas a gente pode acelerar esse processo e já incluir isso numa conta básica do setor”, sugeriu.

A ideia, segundo Carvalho, seria fazer um estudo da aplicação do mecanismo em um terminal modelo, que seria replicado nas demais regiões do país. “Isso custa, sei lá, R$4, 5, 10 milhões, e já seria colocado como um kit de reequilíbrio automático de todos os contratos”.

Para a autoridade, o Executivo deveria facilitar a implementação de melhores instrumentos de adaptação climática e melhorar a modelagem dos atuais padrões dentro das concessões portuárias.

“A gente tem várias associações, vários fóruns de pressão sobre o governo, para começar a colocar esses elementos na pauta e rediscutir as modelagens dos contratos”, afirmou.

Geopolítica

Em relação às atuais divergências globais e à maneira como elas prejudicam o setor de infraestrutura, Casemiro abordou o impacto dos conflitos armados na logística. Ele destacou que existem mais de 200 tipos de guerras no mundo e, embora muitos desses confrontos sejam localizados, seus efeitos reverberam na economia internacional.

A guerra na Ucrânia, por exemplo, afetou diretamente o mercado de gás na Europa, gerando instabilidade no transporte de mercadorias. “O número de omissões e atrasos, em 2024, aumentou em 68% nas escalas dos serviços de contêineres. E isso é um problema para a costa leste sul-americana”, detalhou.

Carvalho explicou que os atrasos nos navios provenientes do exterior geram um efeito cascata em toda a cadeia. Ele mencionou Petrolina, centro de produção de frutas que exporta para os Estados Unidos pelo Porto de Salvador, e que atualmente enfrenta problemas com a perda de mercadorias devido à omissão das embarcações na pontualidade das remessas.

“A perda de escala e de previsibilidade no serviço internacional de transporte repercute na necessidade de aumento de capacidade aparente nos terminais, para responder a esse pico operacional, seja pelo lado do portão ou do lado do berço”.

Raquel Kibrit, diretora executiva da International Association of Port Development (Associação Internacional de Desenvolvimento Portuário), pontuou que o Brasil precisa reconhecer as novas realidades e se preparar para as incertezas do futuro, tanto no campo climático quanto no geopolítico. “Não dá para ignorar, precisamos agir, fazer, tomar as providências”.

Kibrit também observou que, embora a América Latina raramente seja responsável por crises globais, sofre com as consequências de conflitos e instabilidades internacionais.

“A nossa cultura latina de tolerância ao risco, a gente entende exatamente que não estamos preparados, como deixamos acontecer e depois resolvemos”, destacou. “Como é que a gente se antecipa para não sofrer tanto com esses embates? E aí, entender quais são os nossos aspectos de blindagem ou, eventualmente, surfar as boas ondas no novo normal”, finalizou.

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