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Beatriz Gallotti

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Cabotagem em movimento: o impulso necessário para sair da inércia

Em qualquer análise comparativa, o modal marítimo apresenta vantagens expressivas sobre o transporte rodoviário: menor custo por tonelada, menor impacto ambiental, redução de acidentes e maior regularidade operacional. Ainda assim, a participação da cabotagem na matriz logística brasileira permanece aquém do potencial.

A cabotagem brasileira atravessa uma etapa de reconfiguração regulatória que recoloca o tema no centro das discussões sobre logística e infraestrutura. As portarias, uma recentemente publicada e outra ainda em consulta pública, formam um conjunto que busca modernizar o setor ao introduzir critérios ambientais, sociais e contratuais voltados ao fortalecimento da oferta e ao estímulo de práticas sustentáveis. Embora não haja consenso entre os atores da cadeia, é inegável que o Ministério de Portos e Aeroportos optou por enfrentar, de modo direto, a inércia histórica do modal. A estratégia é clara: agir, ajustar e avançar, reconhecendo que o aperfeiçoamento regulatório decorre da experiência concreta, não da espera por cenários ideais.

O diagnóstico que sustenta essas iniciativas é conhecido. A cabotagem é particularmente eficiente em percursos de até mil quilômetros, embora também possa competir em trechos mais extensos, dependendo das características da carga e da rota. Em qualquer análise comparativa, o modal marítimo apresenta vantagens expressivas sobre o transporte rodoviário: menor custo por tonelada, menor impacto ambiental, redução de acidentes e maior regularidade operacional. Ainda assim, a participação da cabotagem na matriz logística brasileira permanece aquém do potencial. Para que embarcadores migrem em escala relevante, mais do que reconhecer as vantagens do modal, é necessário assegurar condições de operação minimamente estáveis. E essas condições envolvem três elementos decisivos: previsibilidade regulatória e contratual, quantidade suficiente de embarcações e disponibilidade de marítimos qualificados.

É justamente nesse ponto que as portarias buscam incidir. A regulamentação voltada a embarcações sustentáveis introduz um sistema progressivo de pontuação, no qual requisitos ambientais, operacionais e sociais são avaliados de forma escalonada. Em vez de um conceito rígido e binário, a norma adota um modelo evolutivo, que permite avanços graduais e reconhece diferentes estágios de maturidade tecnológica e de gestão. A lógica é incentivar a modernização sem impor barreiras intransponíveis. Ao mesmo tempo, a portaria estimula ganhos sociais relevantes, como a ampliação da participação de mulheres e grupos sub-representados nas tripulações. Trata-se de um objetivo legítimo, alinhado às tendências internacionais, mas que colide com um desafio estrutural: o déficit histórico de marítimos brasileiros.

O País enfrenta, há anos, um descompasso entre a demanda por profissionais e a capacidade institucional de formação. Como a Marinha do Brasil é responsável pela certificação e habilitação desses trabalhadores, a expansão desse contingente depende de investimentos consistentes em formação e infraestrutura educacional. A aspiração por diversidade, inclusão e presença feminina na navegação, embora necessária, exigirá uma coordenação estreita entre políticas regulatórias e políticas de capacitação. Sem ampliar o número de profissionais qualificados, metas sociais e operacionais correm o risco de se tornarem objetivos desejáveis, porém de difícil execução. A norma indica o caminho, mas sua efetividade dependerá de alinhamentos institucionais que vão além do escopo regulatório.

Outro ponto central das portarias é a tentativa de conferir estabilidade aos contratos de longo prazo. A incerteza contratual sempre foi um dos elementos mais inibidores do crescimento do modal. A ausência de instrumentos padronizados dificultava a celebração de contratos superiores a cinco anos e limitava o planejamento logístico. Ao consolidar cláusulas essenciais, sobretudo para contratos take-or-pay, a regulamentação busca criar um ambiente mais previsível para embarcadores e armadores, reduzindo a volatilidade e fortalecendo a confiança mútua. Esse é um passo relevante para que a cabotagem se torne, de fato, uma alternativa operacionalmente segura ao modal rodoviário.

A agenda regulatória também se insere em um contexto mais amplo, que engloba as primeiras concessões hidroviárias e a reestruturação dos serviços associados à navegação interior. Não se trata de privatizar rios, mas de organizar a prestação de serviços essenciais em modelos de longo prazo, com metas claras e obrigações definidas. Essa convergência entre cabotagem, hidrovias e sustentabilidade indica que o País começa a enxergar a navegação aquaviária como sistema integrado, em vez de coleções dispersas de políticas e projetos.

As reações às portarias naturalmente variam. Parte do setor vê nas normas uma oportunidade de elevar o padrão competitivo, atrair investimentos e alinhar a cabotagem a referências internacionais. Outra parte teme custos adicionais, complexidade regulatória e dificuldades práticas de implementação. Esse tensionamento é esperado em processos de mudança estrutural, especialmente em cadeias com grande heterogeneidade operacional. O que importa, do ponto de vista institucional, é que o País se disponha a testar, monitorar e corrigir. A experiência internacional mostra que modelos regulatórios bem-sucedidos são construídos em ciclos: inicia-se, observa-se, ajusta-se. A imobilidade, por outro lado, perpetua o descompasso entre potencial logístico e realidade operacional.

O movimento iniciado pelo Ministério reflete essa opção por avançar. Ao colocar diretrizes em prática e reconhecê-las como ponto de partida — e não de chegada —, o Governo busca criar condições mínimas para que a cabotagem amplie sua participação na matriz logística. O desafio não é trivial: aumentar a frota, ampliar o contingente de marítimos brasileiros, consolidar contratos duradouros e garantir que metas sociais e ambientais evoluam ao lado da capacidade operacional. As portarias não encerram as dificuldades, mas representam um impulso necessário. A cabotagem sempre esteve diante de um potencial evidente; o País agora tenta, finalmente, movê-la do campo das boas intenções para o terreno das transformações concretas.

 

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