Mulheres em mercados ditos masculinos: o que sustenta presença em espaços de decisão
Muitas pessoas, em sua maioria homens, ainda se surpreendem quando uma mulher assume um cargo em um ambiente predominantemente masculino. A surpresa revela mais sobre a estrutura do setor — e da sociedade — do que sobre a capacidade dessa profissional.
Em áreas como comércio exterior e atividade portuária, os dados confirmam esse cenário. Levantamento apresentado pelo movimento Mulheres no Comércio Exterior mostra que apenas 14,5% das importadoras brasileiras possuem maioria feminina no quadro societário e que somente 2% do total exportado no País vem de empresas lideradas por mulheres. No setor aquaviário, pesquisa divulgada pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) registrou aumento de 0,5% na participação feminina em relação ao ano anterior. No cenário global, mulheres ocupam 17,7% das posições no setor portuário.
Embora muitas empresas afirmem apoiar a equidade de gênero — e algumas realmente implementem ações efetivas para ampliar a presença feminina — grande parte ainda reflete barreiras estruturais. Isso se deve, em parte, às redes de influência consolidadas ao longo de décadas. Ambientes majoritariamente masculinos operam há anos dentro de dinâmicas próprias. Ou melhor, há séculos.
A sociedade foi moldada para que homens exercessem funções de comando e poder. Não é necessário aprofundar esse ponto, pois ele é amplamente conhecido. A partir da Segunda Guerra Mundial, com muitos homens no front, as mulheres passaram a ocupar mais espaço no mercado de trabalho. Ainda assim, estar presente em ambientes predominantemente masculinos nunca significou reconhecimento automático. Ao longo dos anos, precisaram demonstrar valor em espaços que não foram pensados para elas.
Quando falo em gestão de imagem, falo sobre o espaço que ocupamos e o espaço que queremos ocupar. Trata-se de gerir nosso posicionamento nos ambientes que frequentamos.
Os símbolos historicamente associados às mulheres estão ligados ao cuidar, educar e servir. Não por acaso, áreas como psicologia e pedagogia são majoritariamente exercidas por mulheres. A questão é: por que não incluir símbolos como capacidade de influência, assertividade, visão voltada a processos e habilidade de negociação como atributos igualmente associados às mulheres?
Ocupar espaços nos quais sabemos que somos capazes de atuar exige assumir temas que sustentam relevância dentro da organização. Orçamento, margem, investimento, risco, regulação, produtividade e expansão definem quem influencia o rumo do negócio. Quando mulheres permanecem afastadas desses debates, limitam sua projeção.
Recentemente participei de um evento que apresentou dados sobre a audiência de um programa de televisão voltado para empreendedorismo e negócios. Quase 80% do público era composto por homens. Isso indica quem está consumindo conteúdo sobre capital financeiro, política econômica e governança. Quem domina a informação participa com mais segurança das decisões.
Isso influencia não apenas o cargo que ocupamos, mas também quanto somos remuneradas por ele. A diferença salarial entre homens e mulheres pode variar entre 23% e 27%, segundo pesquisas nacionais. Existem vieses estruturais que precisam ser enfrentados. Ao mesmo tempo, o mercado é pragmático e remunera quem está mais exposto às decisões críticas, lidera orçamento e entrega resultado.
A presença de mulheres precisa ser intencional e orientada à influência, não limitada a cumprir metas internas ou compor estatísticas. Gerenciar a própria imagem passa por ampliar a associação do seu nome a temas de impacto relacionados ao espaço que deseja ocupar. A presença precisa estar conectada a conteúdo técnico e à capacidade de ocupar espaços estratégicos.
Não se trata de abandonar características individuais. Trata-se de ampliar a forma como a competência é percebida. Estudos indicam diferenças médias entre homens e mulheres em determinadas habilidades cognitivas, mas isso não define aptidão para liderar empresas ou gerir operações complexas. Tomada de decisão é desenvolvida por prática, exposição à pressão e responsabilidade sobre resultados.
Cada mulher define seu projeto profissional. Nem todas desejam cargos de comando. Mas aquelas que atuam em setores dominados por homens precisam decidir se querem apenas participar ou influenciar. Influência exige preparo e visibilidade consciente, para que o posicionamento não se torne ruído.
No Dia Internacional da Mulher, haverá homenagens e comunicações internas. O reconhecimento é válido e gentileza nunca é demais. Mas a mudança real ocorre na reunião de orçamento, na negociação com investidores, na discussão sobre expansão de terminal e na definição da estratégia comercial.
Ambientes masculinos se transformam quando mulheres passam a ocupar, de forma contínua, as cadeiras onde metas são definidas e recursos são distribuídos. A ocupação começa pela decisão individual de não aceitar limites implícitos e se sustenta pelo uso consistente da própria presença para influenciar resultados.