quarta-feira, 29 de abril de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Beatriz Gallotti

Clique para ver mais

Articulista

Porto sem mulher é porto incompleto

Existe uma fotografia mental que muita gente ainda carrega quando pensa em porto: homens com coletes refletivos, guindastes pesados, navios atracados sob o sol forte. Uma cena de força bruta, movimentação de mercadorias e de trabalho físico, que parece completa, mas não é.

Durante décadas, os portos brasileiros operaram sob regras que, explícita ou implicitamente, excluíam as mulheres. A lógica repetida por muitos era simples, não obstante equivocada: o trabalho portuário era pesado demais, perigoso demais e inadequado para a presença feminina. Nas operações de cais, no embarque e desembarque de cargas, nas cabines dos equipamentos. Mas a ausência delas não se limitava às operações. Estendia-se por todo o macrossistema: nas agências, nos órgãos reguladores, nas empresas, nas capitanias, nos escritórios que assessoravam armadores e terminais, nas mesas onde se negociavam contratos de terminais.

Um porto sem mulheres opera sem metade do talento disponível. E isso é tanto injusto quanto ineficiente. A infraestrutura crítica que movimenta mais de 90% do comércio exterior brasileiro não pode se dar ao luxo de ignorar trabalhadoras qualificadas e com ricas perspectivas profissionais.

A Constituição Federal de 1988 foi direta: homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. A legislação profissional e empresarial não distingue capacidade por gênero. Formalmente, não existe barreira jurídica para que uma mulher ocupe qualquer posição — nem na presidência de uma autoridade portuária, nem na cabine de um reach stacker, ou na mesa de uma negociação internacional de afretamento. Mas enquanto o papel aceita tudo, a cultura, nem sempre.

A ruptura do padrão exclusivamente masculino nos portos começou a ganhar forma somente em 1993, com a criação do Órgão Gestor de Mão de Obra — o Ogmo — e a instituição do concurso para o trabalho portuário avulso. A lei, ao exigir isonomia no acesso, abriu uma fresta que algumas mulheres souberam – e tiveram coragem para – atravessar. Para isso, se qualificaram, insistiram e ocuparam espaços onde não eram esperadas. E lá entregaram resultados que tornavam a exclusão cada vez mais difícil de justificar. 

Mas ainda hoje, muitas são as barreiras. A engenheira que precisa provar, duas vezes mais que qualquer colega, que entende de operações de carga. A advogada chamada de secretária na primeira reunião com o cliente. A gestora que ascendeu e logo descobriu que o desafio real não era o trabalho, mas o isolamento. E, infelizmente, esses relatos não são exceções dramáticas.

Preencher essa lacuna exige mais do que boa vontade. Começa pelos dados: não existe transformação sem diagnóstico. Quantas mulheres atuam em cada segmento do setor? Em que funções? Quais dificuldades enfrentam? Sem esse mapeamento, qualquer política de inclusão opera no escuro. Depois, segue pelas condições concretas de trabalho — instalações adequadas, equipamentos adaptados, políticas de licença que não penalizem a maternidade etc. 

A igualdade formal da Constituição precisa se traduzir em igualdade material nos vestiários, nas escalas e nos planos de carreira. Passa por programas de formação e acesso, porque a exclusão histórica deixou uma lacuna que o tempo sozinho não fecha — é preciso ir buscar, em escolas técnicas, em cursos náuticos, em programas que entendam diversidade como estratégia. E chega, inevitavelmente, à cultura organizacional: o mais difícil e o mais determinante. Políticas de tolerância zero ao assédio, processos seletivos que reduzam vieses, lideranças que respondam por metas de inclusão com o mesmo rigor com que respondem por metas operacionais. A cultura só muda por pressão consistente, por responsabilização e por exemplo.

Pesquisas consistentes demonstram que ambientes de trabalho mais diversos permitem melhores decisões, gerenciamento de riscos com mais eficiência e resultados financeiros superiores. 

Concordar ou discordar dos mecanismos específicos de equidade faz parte de qualquer discussão séria de política pública. Mas o que não se sustenta mais — nem juridicamente, nem economicamente, nem eticamente — é ignorar os benefícios concretos que a participação feminina traz ao mercado de trabalho e, em particular, a um setor que aspira ser moderno e competitivo em escala global. 

As mulheres que hoje estão nos portos não chegaram por acaso. Chegaram apesar de muita coisa. E cada uma delas carrega a história de todas as que tentaram antes. Nesta semana em que o mundo se dedica a reconhecer a força feminina, espera-se maturidade do setor para que as próximas simplesmente cheguem — sem precisar provar nada além da competência.

Compartilhe:
TAGS

Leia também