Portos
Wilson Sons testa biocombustível em rebocadores no Porto do Açu
Testes com biodiesel “drop-in” avaliam desempenho operacional e potencial de reduzir em até 99% as emissões no apoio portuário
A Wilson Sons iniciou testes operacionais com biocombustível em rebocadores no Porto do Açu, no norte do Rio de Janeiro, em uma iniciativa voltada à redução de emissões no transporte marítimo. A operação ocorre no terminal de embarque de minério de ferro da Ferroport e utiliza o combustível Be8 BeVant no rebocador WS Rosalvo.
O projeto tem como foco avaliar a viabilidade técnica do uso do biocombustível em operações portuárias de alta exigência, com a expectativa de reduzir em até 99% as emissões de dióxido de carbono (CO₂) em comparação ao óleo diesel marítimo tradicional. A iniciativa integra uma agenda mais ampla de descarbonização no setor de apoio portuário, especialmente em atividades como manobras e atracação de navios.
Durante a fase de testes, o rebocador será monitorado por sistemas de telemetria, que irão registrar dados operacionais em tempo real, incluindo consumo de combustível, desempenho dos motores, estabilidade da operação, durabilidade dos componentes e níveis de emissões. As informações serão consolidadas em um relatório técnico, que servirá de base para validação do combustível e posterior submissão a processos de certificação internacional.
O biocombustível utilizado nos testes foi desenvolvido pela Be8 e é classificado como um biodiesel do tipo “drop-in”. Isso significa que pode ser utilizado diretamente nos motores das embarcações, sem necessidade de adaptações na infraestrutura existente, característica considerada relevante para facilitar a adoção em larga escala no setor marítimo.
Produzido na planta industrial da empresa em Passo Fundo (RS), o Be8 BeVant é obtido a partir de matérias-primas como óleo de soja, gordura animal e óleo de cozinha usado (UCO). A proposta é oferecer um combustível com desempenho técnico semelhante ao diesel convencional, mas com menor impacto ambiental ao longo do ciclo de vida.
Segundo o gerente de Sustentabilidade da Ferroport, Edenilson Sanches, o teste tem potencial de gerar impactos além da operação direta dos rebocadores, ao contribuir para a redução das emissões indiretas associadas às atividades portuárias e à cadeia logística do minério de ferro, incluindo operações vinculadas à Anglo American.
Na avaliação do diretor-executivo de Rebocadores da Wilson Sons, Márcio Castro, a iniciativa reforça o papel de parcerias estratégicas na implementação de soluções voltadas à sustentabilidade no setor marítimo, ao mesmo tempo em que mantém os padrões operacionais de segurança e eficiência exigidos nas atividades portuárias.
O desenvolvimento do Be8 BeVant levou cerca de três anos e envolveu etapas distintas de pesquisa, incluindo aproximadamente dois anos dedicados à formulação química do produto e um ano adicional de testes em banco de provas. Esse processo contou com a participação de parceiros industriais, com foco na validação do desempenho do combustível em condições controladas antes da aplicação em campo.
De acordo com o diretor de Transição Energética da Be8, Camilo Adas, o objetivo foi desenvolver um combustível que pudesse ser utilizado de forma integral, sem mistura com diesel fóssil e sem necessidade de alterações na cadeia logística ou nos equipamentos, o que exigiu sucessivos ciclos de testes, ajustes de formulação e validação técnica.
Outras iniciativas
A Wilson Sons já vinha realizando iniciativas semelhantes no Porto do Açu. Em 2025, a companhia conduziu testes com HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), conhecido como diesel renovável, em parceria com a Vast Infraestrutura. Na ocasião, o combustível foi utilizado como alternativa ao diesel marítimo em rebocadores que operam no mesmo complexo portuário.
Os testes atuais com o Be8 BeVant ampliam esse histórico de experimentação com combustíveis de menor emissão no setor marítimo brasileiro, especialmente em operações de apoio portuário, que demandam alto nível de confiabilidade e disponibilidade das embarcações.
Apesar dos avanços técnicos, a adoção de biocombustíveis em larga escala ainda enfrenta desafios relacionados à consolidação de mercado, disponibilidade de oferta e adaptação gradual de cadeias produtivas historicamente estruturadas em torno de combustíveis fósseis, fator que influencia o ritmo de incorporação dessas alternativas no transporte marítimo.