“As veias de Paris”
“Se um dia eu voltasse, não seria mais no outono chuvoso, e mesmo que primavera fosse, trocaria os jardins de Luxemburgo pelas campas do cemitério Père-Lachaise, não para nelas me enterrar, mas para reverenciar vultos que inspiraram minha juventude quando Paris era uma festa. Foram inúmeras as imagens que carreguei na mala para lá, imagens que roubei de livros e filmes incandescentes”
Não quero voltar a Paris. Não como turista, não a trabalho. Se voltasse um dia a Paris, não iria a lugares que encheram meus olhos e não mais me sugerem selfies. Hoje eu seria um errante que se perderia nas ruas mais excêntricas do Marais, mais misteriosas de Pigalle.
Seria um vagante nas vielas do Rive Gauche, onde barcos flutuam na mansidão e esqueceram de partir. Sim, eu flutuaria meus olhos nas águas do Sena, a veia que desagua o sangue de Paris. E lá percorreria todos os sebos, e quando a noite chegasse, beberia um vinho com um taco de queijo e croissant quando a cidade, cansada, exibe sua luz.
Se eu voltasse um dia a Paris, não comeria escargot (nem todas as experiências me atraem). Não voltaria ao Louvre para visitar Monalisa. Preferiria me espalhar pelos campos floridos de Monet. Iria ao Musée D’Orsay, que só conheci o saguão de entrada quando meu coração pulsou alucinado e eu voltei para o hotel.
Ah, inesquecível aquela tarde chuvosa em que meu peito tremia descompassado como os pingos na janela do quarto onde me aninhei na cama de Paris.
Se um dia eu voltasse, não seria mais no outono chuvoso, e mesmo que primavera fosse, trocaria os jardins de Luxemburgo pelas campas do cemitério Père-Lachaise, não para nelas me enterrar, mas para reverenciar vultos que inspiraram minha juventude quando Paris era uma festa. Foram inúmeras as imagens que carreguei na mala para lá, imagens que roubei de livros e filmes incandescentes.
Na basílica de Sacré-Coeur voltaria para agradecer por esses anos de vida, ao conter minha arritmia por estar naqueles dias em Paris. E depois de rezar, desceria pelos caminhos tortuosos de Montmartre à procura da caricatura que fiz na praça dos artistas e perdi.
Sentaria na mesinha do Deux Magots, como se fosse Sartre ou Camus, num alongado café e olhos perdidos na gente que passa na calçada da Saint-Germain-des-Prés. E à noite frequentaria o Moulin Rouge, abanando
meu espírito como as saias do cancan que tanto atiçavam Toulouse-Lautrec.
De jeito nenhum compraria na galeria Lafayete um cadeado para trancar um amor nas grades da Pont Neuf. Porque não teria amor para perpetuar, só algumas lembranças que se entrelaçaram na vida de um turista atrás de sonhos.
Sabe, eu só voltaria a Paris sem qualquer compromisso, para apenas respirar, sentir o pulsar e ouvir o que as pessoas dizem mesmo sem entender bem o francês. Voltaria só para amar a cidade, como quem troca suor na intimidade dos amantes, entranhado em suas veias feito sangue, o jeito certo de conhecer um lugar.
Mas não sei se voltarei um dia a Paris, turista errante que sempre fui em tantos lugares que conheci sem sentir suas veias.