Operação de descomissionamento deverá sofrer com gargalo, pois não há estaleiros suficientes para receber a demanda
Até 2031, cerca de 40% da frota de navios mercantes ativos no mundo deve ser encaminhada para serviços de descomissionamento, sem que existam estaleiros suficientes para dar conta dessa demanda. A projeção para 2031 foi baseada em dados de 2019, que mapearam mais de 100 mil embarcações de carga existentes, das quais cerca de 40 mil terão a vida útil encerrada nos próximos cinco anos.
Em 2035, esse número aumentará para 60%, até que em 2050, os navios que existiam em 2019 não existirão mais e precisarão ser desmontados sem que haja empresas suficientes que façam este tipo de operação.
As informações foram repassadas pelo professor doutor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Newton Narciso Pereira, durante uma apresentação feita no painel “Indústria naval: descomissionamento e a retomada da capacidade produtiva nacional”, debatido no Rio de Janeiro Export, fórum promovido pelo Grupo Brasil Export nesta segunda-feira (27).
“O serviço de descomissionamento é um grande gargalo mundial para os armadores. É um mercado com potencial muito grande que vai além da desmontagem porque abre demandas para o setor de remoção de materiais perigosos, de serviços de corte dessas estruturas, de limpeza e descontaminação. Até 2033, devemos ter 25 milhões de toneladas de sucata naval, mas sem local para fazer essas operações”, explicou Newton.
Ainda segundo o professor, em sete anos, haverá de 7 a 8 navios por dia demandando de reciclagem e não há infraestrutura no Brasil e nem em outros países que dê conta desse volume. O pico estrutural da demanda global por reciclagem naval será de 2033 a 2039. Já o ponto crítico vem um pouco antes, de 2030 a 2035, quando a maior fração da frota mundial atingirá sua idade limite de operação, saltando de 650 para 2.800 navios sendo descartados por ano, o que exigirá uma infraestrutura global capaz de processar múltiplas embarcações diariamente.
Plataformas
Além dos navios, as plataformas offshore – ou Floating Production, Storage and Offloading (FPSO) precisarão destes serviços nos próximos anos e devem enfrentar um gargalo ainda maior devido ao nível de complexidade de desmontagem dessas estruturas. Enquanto um navio mercante é descomissionado em até cinco meses, uma plataforma pode levar até dois anos. “É um ciclo totalmente diferenciado, uma planta toda para descontaminar”, citou o professor.
Atualmente, há 182 FPSOs em operação no mundo, com vida útil variando de 20 a 30 anos – porém, cerca de 25% dessa frota já ultrapassou os 40 anos em operação, de acordo com os dados apresentados.
Brasil
Newton destacou um projeto preparado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), que visa instalar uma planta de reciclagem de embarcações em Barra do Furado (TSL), no Rio de Janeiro, e ampliar a presença do país no mercado de descomissionamento.
A ideia é que o ativo receba navios mercantes e plataformas e ofereça serviços completos em todas as etapas da operação de desmontagem e destinação. “O Brasil está acordando para isso agora e não podemos perder a oportunidade porque essas demandas vão acontecer e se não estivermos preparados, perderemos um grande mercado para outros países, que já estão se preparando”, concluiu.
Já Ivo Dworschak, diretor da Frente Empresarial Naval do Rio de Janeiro (FENAV-RJ), destacou que se o Brasil não avançar também na regulação do nicho e na busca por um alinhamento mais prático com os órgãos ambientais, a atividade não se desenvolverá a tempo. A moderação do painel também foi feita por Ivo.
Participaram ainda Marcelo Dourado, Group Decommissioning Manager da SBM Offshore; Ronaldo Feltrin, Superintendente Adjunto na 7a. Região Fiscal da Receita Federal do Brasil; e Tertius Ribeiro, Presidente da Transnave Estaleiro. O Rio de Janeiro Export segue nesta terça-feira (28), com transmissão ao vivo pelo canal da Rede BE News no Youtube.