Transpetro amplia encomendas e ANP reforça políticas de conteúdo local em meio a cenário global de insegurança
A retomada da indústria naval brasileira e o fortalecimento da logística energética voltaram ao centro do debate no país, impulsionados por novos investimentos da Transpetro e por políticas regulatórias que buscam garantir competitividade. Em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e riscos ao abastecimento, autoridades defendem o protagonismo das estatais e a reconstrução da capacidade produtiva nacional.
O diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Pietro Mendes, destacou o processo de retomada, que envolveu desafios e novas legislações.
“Desafio tremendo voltar a construir navio no Brasil. Foi muito difícil. Tivemos que fazer uma série de mecanismos para tornar os estaleiros brasileiros competitivos. Contamos com novas legislações, fizemos uma série de novas leis que permitiram essa retomada”, afirmou.
Entre essas ferramentas está a atuação da própria ANP na validação de custos da construção naval no país. “Somos responsáveis por atestar a razoabilidade da diferença entre um navio construído no Brasil e, por exemplo, um estaleiro na China, para que faça jus a benefícios como redução de royalties”, pontuou.
A discussão ganha ainda mais relevância diante do novo contexto internacional. Mendes cita episódios recentes de instabilidade como fator de alerta para o Brasil. “Cada país olha individualmente para sua capacidade de soberania energética, que depende de ter a maior quantidade possível de navios, frotas próprias”, afirma. Ele lembra que eventos como o fechamento do Estreito de Ormuz evidenciam riscos antes considerados improváveis. “Era uma coisa inimaginável que a gente via nos livros. Afetar a passagem de 20 mil barris por dia era algo que ninguém acreditava que sairia da teoria para o campo”, ponderou.
Nesse cenário, a Transpetro surge como peça-chave para garantir o abastecimento e estruturar a logística nacional. “Não há como discutir o futuro da logística sem incluir a Transpetro, porque somos também a maior operadora de dutos do país e a maior empresa de navegação”, disse o presidente da companhia, Sergio Bacci.
Após um período de menor protagonismo em governos anteriores, a empresa voltou a investir na ampliação da frota. O movimento acompanha a estratégia do sistema Petrobras de fortalecer a logística própria e reduzir a dependência de afretamentos, além de estimular a indústria naval brasileira.
Os novos ativos incluem navios, barcaças e empurradores, ampliando a capacidade de transporte de petróleo e derivados e permitindo a entrada em novos modais logísticos. “Já encomendamos 52 embarcações com investimentos de aproximadamente dois milhões de dólares para os próximos cinco anos. Esses navios vão ampliar nossa capacidade de transporte e permitir que a Transpetro ingresse em novos modais logísticos”, comentou o executivo.
Para Bacci, os impactos vão além da própria empresa. “Quando o sistema Petrobras decide investir na ampliação da frota própria, os impactos são sentidos rapidamente por toda economia”, diz. Segundo ele, a retomada já se reflete no mercado de trabalho e na reativação de polos industriais.
“O resultado evidente é a retomada da indústria naval. Em relação a 2022, o reflorescimento de alguns principais polos navais brasileiros, como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Amazonas e na Bahia, só foi possível Graças às demandas geradas pela transpetro pela Petrobras”, afirmou o executivo.